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Victor Ribeiro narra a criação de sua Ronda da Capivara, que integra o CD Novas 3. Baixe partitura

Postado em Concurso Novas em 29/10/2019

(Victor Ribeiro / crédito: Thiely Leoni)

Por Victor Ribeiro

Especial para o Acervo Violão Brasileiro

Meu processo criativo normalmente começa assim: ritualizo o momento, pego o violão e deixo os dedos e as emoções fluírem sem pudor ou julgamento. Dalí nasce uma ideia, ou várias. Olho então pra elas, analiso e pergunto pra mim mesmo sobre o que me remete aquela abstração musical.

Então sigo numa investigação sobre aquele tema transbordado, juntando na minha cabeça sensações e referencias e criando significância. Vejo nesse caminho uma forma de trazer uma música mais sincera, real, menos artificial. Da crueza e imprevisibilidade do improviso emergem mensagens inconscientes que me interessam muito.

A partir daí, esse processo mais livre se mistura a outro, mais controlado, consciente e técnico, no qual realizo escolhas de maneira cuidadosa. A técnica e os conceitos teóricos deixo em função da comunicação da ideia em si. A música - principalmente instrumental - já tem em sua natureza a subjetividade, então procuro ser o mais claro possível na mensagem, utilizando de todo tipo de artifício técnico que me pareça relevante e coerente e que possa fazer alusão à algum conteúdo extramusical.

BAIXE A PARTITURA DE "A RONDA DA CAPIVARA"

A música nos ambienta no espaço e no tempo em que a mensagem está sendo contada, nos traz cores, texturas, aromas, sabores. E a gente percebe isso, mental e emocionalmente, baseado nas nossas memórias, experiências e referências individuais da vida.

O grande lance pra mim é brincar com a mistura dessas referências, criando cenários e emoções mais complexas (no sentido da quantidade de camadas) como de fato se apresentam na vida real. Afinal, nada é uma coisa só.

Para falar mais especificamente da partitura de Ronda da Capivara - que o Acervo Digital do Violão Brasileiro lança nesta terça-feira (29/10) - tudo partiu do primeiro arpejo da música em dó maior que me brotou nos dedos num momento desse de improviso. Voltei ao arpejo e segui improvisando impulsionado pelo motivo melódico.

Fiz isso algumas vezes, formou-se uma ideia mais estruturada, quase a primeira parte inteira, e larguei de mão. No dia seguinte lembrei, “por acaso”, de uma família de capivaras que vi perto de onde eu morava, na Ilha da Gigoia, e que muito tinha me chamado a atenção (na verdade foi um susto mesmo).

Essa imagem de autoproteção, crueza, amor e assertividade que vi ali e que vejo na natureza foi o gancho pra falar de mais um aspecto da Liberdade, tema central do meu disco autoral que lancei ano passado, cujo título é esse tema. A Ronda da Capivara é sobre exercer o direito que ser quem somos em essência. E de proteger esse direito em nós e no(a) outro(a). 

Sobre aspectos mais técnicos, procurei trazer referências principalmente da música regional brasileira para situar o questionamento de forma também política; e do rock, pela urgência e agressividade assertivamente necessária. Para misturar tudo e qualquer coisa, a base do caldo é sempre o jazz e a música (dita) erudita como instrumento, por harmonizarem e acolherem toda e qualquer liberdade. As dinâmicas, agógicas, vozes, orquestração ficam todas em função da mensagem de cada sessão.

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