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Ernani de Figueiredo

Nascimento:

Falecimento: 26/02/1917

Natural de: Campos (RJ)

Multi-instrumentista e maestro, Ernani de Figueiredo era, na opinião do musicólogo Domingos Prat, a maior autoridade do violão no Brasil

POR JORGE CARVALHO DE MELLO

Ernani Esmeraldo de Figueiredo nasceu em Campos, Rio de Janeiro, em data desconhecida. De acordo com o violonista e musicólogo espanhol Domingos Prat (Diccionario de Guitarristas), ele era considerado como a maior e a indiscutível autoridade do violão no Brasil em sua época. Teve sólida formação musical, iniciando seus estudos em Campos com os professores Leopoldo Muylaert, Francisco Chagas e Lourenço Soares.

O professor Vicente Marins Rangel Junior, no livro Recortes da Memória Musical de Campos,1839-1965, Edições Damadá, 1992), informa: Ernani de Figueiredo foi admitido na Sociedade Musical Lyra de Apollo em 1889, constando no registro que era solteiro e exercia a profissão de alfaiate. Ainda segundo o estudioso, o violão – para o músico, que já tocava trombone e dominava a técnica do violino – era um ilustre desconhecido, que só lhe surgiu na vida por insistência do amigo de infância Pedro Silva, que o estimulou a aprender a tocar tal instrumento.

Ensinar violão sem saber tocá-lo transformou-se num desafio para o música campista, quase uma obsessão. Quando o Método de Violão de M. Carcassi lhe chegou às mãos, percebeu que o desafio era ainda maior do que supunha.

Nas anotações preparadas para uma conferência que faria em Campos e que não chegou a ser realizada em razão de sua morte (publicadas na revista O Violão, em fevereiro de 1929), ele escreveu: “No violino, sob as vistas do Maestro Francisco Chagas, tive após os exercícios da primeira posição, os da segunda e os de todas as outras pela ordem numérica. Entretanto no violão estudamos a primeira posição, depois a segunda e passamos para quarta, quinta, sétima e nona... só depois é que vamos conhecer a terceira, sexta, oitava e decima. Assim, a circunstancia que se me antalhou como um obstáculo invencível, chegou a inspirar-me a ideia que o método estava errado....” (sic)

Vencidos os obstáculos iniciais, Ernani fez primeira apresentação pública em 29 de abril de 1903 no Grêmio  Campista interpretando Carnaval de Veneza e Impromptu Pathetique, esta última de sua autoria (Correio da Manhã, 6 maio de 1903, página 3). Nas já citadas anotações da conferência não realizada em Campos, ele acrescenta que se apresentou no Grêmio Musical Carlos Gomes e no Theatro S. Salvador, mas não especifica as datas.

Formação

Na cidade do Rio de Janeiro, Ernani de Figueiredo estudou harmonia, contraponto, fuga, instrumentação e composição com o maestro e diretor do Conservatório Livre de Música, Cavalier Darbilly, ao mesmo tempo em que estudava violão com um professor particular, que muito provavelmente era o colcheiro Bernardino José Peireira, citado no livro Violão e Identidade Nacional, de Márcia Taborda.   

Integrou a Orquestra de Bandolins de João dos Santos Couceiro, e participou do último concerto em 30 de outubro de 1904 no Theatro Lyrico, no naipe dos violões, em que estavam também Alfredo Imenes e Joaquim Francisco dos Santos (Quincas Laranjeiras) (O Paiz, 0 novembro de 1904, página 2).

Um grande concerto em benefício das vítimas da enchente do rio Paraiba, em especial às de Campos e arredores, foi realizado no Theatro S. Pedro de Alcântara em 25 de março de 1906. Ernani integrou um quarteto em que também figuravam Joanna Brandão, Alfredo Imenes e Martiniano Brandão, que executaram uma peça de Giaccome Fiacco. Em solo de violão, o músico campista executou Enchanteresse, fantasia de concerto de sua autoria (Gazeta de Notícias, 25 março 1906, página 10).

Duo com Levino

Em 13 de agosto de 1906, Ernani Figueiredo participou de um concerto realizado no Conservatório Livre de Música, organizado por Levino Albano da Conceição, então aluno do Instituto Benjamin Constant, e pelo professor Luiz Margutti. O duo formado por Levino e Ernani executou Ave Maria, de Bach/Gounod, em arranjo de Quincas Laranjeiras (que também participou do evento) e Tarantella.

Um grupo de mulheres do Conservatório Livre de Música organizou a Serenata Veneziana em homenagem ao então prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, no dia 8 de setembro de 1906. Partiram três barcas do cais Pharoux em direção à enseada de Botafogo. Numa das barcas estava a orquestra de bandolins e violões em que figuravam, entre outros, Manoel Gonçalves da Silva, Quincas Laranjeiras e Ernani de Figueiredo (Gaz eta de Notícias, 9 setembro 1906, página 5). A então jovem pianista Branca Bilhar, sobrinha de Satyro Bilhar, participou deste evento e era, na ocasião, aluna do Conservatório Livre de Música.

Ernani de Figueiredo organizou um concerto na Sessão Magna do Club Gymnastico Portuguez, presidida pelo Conde Affonso Celso, em 11 de junho e 1907 (O Paiz, 12 junho 1907, página 2). Ele se apresentou como solista de violão e integrante do Quarteto da Estudantina. Apresentaram-se também nesta ocasião os professores Paganini, Eurico Costa e Thereza Derlandes, entre outros.

Ainda em 1907, na grande festa realizada no dia 30 de julho, em comemoração ao quarto aniversário da Liga dos Voluntários da Associação Cristã de Moços, Ernani de Figueiredo apresentou uma peça em solo de violão. O conjunto formado por ele, Luiz Silva, Euclides Cícero, Abílio Prates, Albino Ferreira, Manoel Teixeira e Manoel Gonçalves, interpretou a valsa Desconhecida e a Serenata de San Fiorenzo (O Paiz, 1 de agosto de 1907, página 3).

Em 19 de julho de 1908 foi realizado um concerto dedicado à imprensa, no Club dos Fenianos do Meyer. Entre os músicos que participaram dessa apresentação estavam Melchior Cortez e Ernani de Figueiredo, que executou ao violão sua composição Enchanteresse. Outra composição de autoria dele, Souvenir, foi executada em solo de flauta por João Jupiaçara Xavier, com acompanhamento de violão pelo autor (O Paiz,12 de julho de 1907, página 7).

Recitais em Minas

Em suas anotações, Ernani de Figueiredo conta: “Em 1909, depois de participar de uma festa na Escola de S. José, no Mosteiro de S. Bento, a 15 de agosto, era convidado por um conterrâneo, residente em Minas, a ir a este estado em serviço musical na Exposição de Belo Horizonte. Iniciei então uma série de concertos de violão em diversas localidades”.(sic)

De fato, o jornal O Paiz, na edição de 1 de setembro, na página 3, informa: “O conhecido professor de violão Ernani Esmeraldo de Figueiredo partirá em breves dias para Queluz de Minas, onde realizará vários concertos musicais”. O Pharol (de Juiz de Fora, Minas Gerais),  na edição de 25 de setembro, afirma: “Ernani tem conquistado inúmeros aplausos em Belo Horizonte, onde tem dado alguns concertos”.

Neste mesmo jornal, na edição de 1 de outubro, um artigo assinado por Brant Horta exorta o povo de Juiz de Fora a comparecer ao  concerto de Ernani de Figueiredo em 17 de outubro no salão da Associação dos Empregados do Commercio:  “Além de belas valsas de concerto, de um repertório escolhido de Chopin e de trechos de óperas líricas, ele executa músicas de todos os paladares distinguindo-se sobretudo a “Photophonia do Guarany”, pela dificuldade de execução e beleza dos efeitos...” (sic). Ainda neste jornal,  na edição de 19 de outubro, ao fazer crítica do concerto, o articulista declara que nas músicas Enchanteresse e Habanera, composições de Ernani, e La Ideal, de Sagreras, “o violão deixa de ser sublime para ser quase divino”.

É importante lembrar que esses foram os únicos concertos de violão realizados por Ernani de Figueiredo. Até o fim da breve vida que teve participou de concertos dividindo as salas com outros instrumentistas.

Guitarra portuguesa

Já de volta ao Rio de Janeiro, participou do concerto realizado pelo guitarrista português Santos Coelho, por ocasião do lançamento do seu Methodo de Guitarra Portugueza, prefaciado pelos maestros Francisco Braga e Henrique Osório. Tal concerto foi realizado no dia 8 de maio de 1910, no salão da Associação dos Empregados no Commercio e contou com a participação, além dele, de Quirino de Oliveira, Carmo Marciano, Gabriel de Almeida e Arthidoro da Costa (Gazeta de Notícias, 7 de maio de 1910, página 4).

Ainda nesse ano Ernani de Figueiredo participou intensamente do concerto em benefício do guitarrista português J P de Magalhães Peixoto, realizado em 14 de agosto no salão nobre da Real Sociedade Club Gymnastico Portuguez (ver programa abaixo, divulgado pelo jornal O Paiz, em 14 de agosto de 1910, página...)

Audição no Catete

Por meio de um amigo comum, Paranhos de Macedo, Ernani foi convidado pelo próprio presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, para uma audição musical no Palácio do Catete, onde acompanharia ao violão a primeira dama, Nair de Teffé da Fonseca, exibindo-se também em solos de violão (O Paiz, 27 outubro 1914, página 4).

Tal acontecimento gerou uma grande polêmica, por constar do programa da audição a música Corta Jaca, de autoria da maestrina Chiquinha Gonzaga. O cronista carioca João Ferreira Gomes (Jota Efegê), em artigo originalmente publicado em O Globo, em 27 março de 1973 e depois relançado no livro Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira (Edições Funarte, vol II, 2ª edição, 2007), escreve sobre este acontecimento e cita a indignação (por motivação politica) do senador Ruy Barbosa (adversário político de Hermes da Fonseca) quanto à apresentação da música de Chiquinha Gonzaga.

Em discurso no senado, Ruy Barbosa assim se pronunciou: “Uma das folhas de ontem (referia-se ao vespertino A Noite) estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, a da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam ao País o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? É a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmão gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas, nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras de música de Wagner e não se quer que a consciência deste País se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!". (sic)

O discurso foi publicado integralmente em 8 de novembro de 1914 no Diário do Congresso Nacional e teve ampla divulgação na imprensa oposicionista. Cabe dizer que o Corta-Jaca foi executado pela primeira dama em solo de violão.

Parceria com Brant Horta

Dois grandes acontecimentos ocorridos na cidade do Rio de Janeiro transformaram 1916 no ano do ressurgimento do violão no Brasil. O primeiro marco foi o concerto realizado em parceria entre Ernani de Figueiredo e Brant Horta. O outro momento importante ocorreu com a primeira visita de Agustin Barrios ao Rio de Janeiro.

Com o sugestivo título A Rehabilitação do violão (sic) o jornal A Noite, em 13 de março de 1916, anunciava: “Os professores Dr. Brant Horta e o Maestro Ernani de Figueiredo, que fizeram uma escola complementar nova, vão deliciar o nosso público com um recital de violão. O programma constará de músicas clássicas escritas especialmente para violão. (sic)

Grande parte, talvez a maioria, dos que cultivavam o violão faziam-no "de ouvido". Nessas condições, o violão prestava-se quase que exclusivamente ao acompanhamento de modinhas. Era este o pensamento vigente a respeito desse instrumento tão popular e, à época, tão pouco conhecido. Pouco ou quase nada se falava de violonistas como Clementino Lisboa (o pioneiro), Quincas Laranjeiras, Souza-Imenez, Melchior Cortez e Levino Albano da Conceição, todos com grande conhecimento musical.

Concerto de 1916

Um concerto de violão representava então um grande passo para a reabilitação desse instrumento. O programa do concerto era aguardado também com muita curiosidade, já que fora divulgado que nele constariam peças de Chopin, Beethoven e Wagner, transcritas para o violão por Ernani de Figueiredo. As peças para violão existentes à  época, e por poucos executadas, eram aquelas constantes nos compêndios de violão de autores como Carcassi, Sor, Carulli e Aguado.

Ao longo do mês de abril algumas notas em jornais tais como A Noite, O Paiz e do Jornal do Commercio justificavam o adiamento do concerto de violão em função das reformas que estavam sendo feitas no já referido Salão Nobre. Finalmente, em 2 de maio, o Jornal do Commercio, na seção Theatros e Música informa que tal concerto se realizaria impreterivelmente no dia 6 de maio às 20h30.

Uma audição especial para a imprensa foi realizada no salão da Associação Brasileira de Imprensa em 3 de maio, causando excelente impressão nos críticos como se constata através do destaque dado em artigos publicados nos principais jornais da cidade:  “O sucesso excedeu toda a expectativa... Assistência numerosa, applausos sem fim. O violão ressurge... (sic), (jornal A Noite, de 3 de maio).  “O concerto a realizar-se depois de amanhã merece ser ouvido. Esta festa importa, absolutamente, na rehabilitação do violão” (sic), (Jornal do Commercio, de 4 de maio).

Chega então o tão esperado dia 6 de maio. O concerto não foi  exclusivamente com violão, muito embora tivesse predominado na programação. Foram apresentados números musicais com bandolins, outros violões, bandola e alaúde. Apareceram então as notícias: no Jornal do Commercio: “Realizar-se-á hoje às 8 1/2 horas da noite o annunciado concerto dos violonistas professores Brant Horta e Ernani de Figueiredo.” (sic),  Em O Paiz: “Esse concerto, primeiro no genero que se realiza nesta capital, é em benefício da Associação Brasileira de Imprensa”. (sic)

O programa do Concerto apresenta algumas curiosidades, com músicas completamente estranhas ao repertório de violão erudito da atualidade. Brant Horta executou, em solo de violão, as seguintes músicas: Marcha Fúnebre (Chopin), Liège (marcha descritiva), Ao Luar (barcarola) e Bumba Meu Boi, estas de autoria de Brant Horta. Os solos de violão apresentados por Ernani de Figueiredo foram os seguintes: Impromptu (Fantasia de concerto), Zizinha (habanera), ambas de Ernani de Figueiredo, CharmedeLa Nuit (noturno de J. Ferrer) e Chant d´Oisceiu ( Zulfihu).

Em duo, Figueiredo e Horta executaram Tannhauser (Richard Wagner), Fantasia Espanhola e Rêve Après la Danse, ambas de Louis Emma. No restante do programa, com dois números cada, se apresentaram o septimino de bandolins, a orquestra de bandolins, bandola, alaúde e violões (com a presença ilustre de Quincas Laranjeiras) e Céo da Camara Paradeda Kemp, discípula da Brant Horta, em duo com ele.

Depois do concerto

No dia seguinte ao concerto, a surpresa: o Jornal do Commercio em sua coluna Theatros e Música publica artigo criticando o evento: “O violão não tem ido além de simples acompanhador de modinhas. E quando algum virtuosi quer delle tirar effeitos mais elevados na arte dos sons, jamais consegue o objectivo desejado ou mesmo resultado seriamente apreciável. A arte do violão, não passou por isso, até agora, do seu aspecto puramente pittoresco”.

Parece incrível que o mesmo jornal, na mesma seção, tenha publicado quatro dias antes (artigo do dia 04/05/1916, já citado) um artigo tão elogioso: “Audição de música para a imprensa. Perante numerosa assistencia, principalmente jornalistas, foi exhibido hontem, na Associação de Imprensa, todo o programma do Concerto que os srs Brant Horta e Ernani de Figueiredo vão realizar no proximo sabbado no Salão de Festas do Jornal do Commercio. Nesse concerto em que só figuram instrumentos de corda, destacam-se os violões dos dous concertistas, músicos exímios, insignes tocadores que, na sua execução, tiraram effeitos extraordinarios e novos, conforme se verificou no ensaio de ontem." (sic)

Causa certo espanto que um órgão de imprensa com o prestígio do Jornal do Commercio possa ter publicado, em prazo tão curto e na mesma seção, dois artigos sobre o mesmo tema com pontos de vista antagônicos, sem que nenhum fato novo tenha ocorrido para justificar tal mudança.

Barrios

Tal fato, cuja explicação devia se encontrar nos bastidores, teve desdobramentos quando da vinda do violonista Agustin Barrios em primeira visita ao Rio de Janeiro, em julho de 1916. Anunciado como o primeiro violonista do mundo, Barrios era enaltecido pela crítica musical do Jornal do Commercio e massacrado pelos críticos dos jornais A Noite e Correio da Manhã. O próprio Ernani de Figueiredo travou uma polêmica pelos jornais pelo fato de Barrios se apresentar tocando violão com cordas de aço, argumentando que tal instrumento não podia ser considerado rigorosamente como um violão (Correio da Manhã, 11 de outubro de 1916, página 4).

O duo Ernani de Figueiredo/Brant Horta se apresentou também na despedida do guitarrista português Salgado do Carmo, num concerto realizado em 2 de julho de 1916, na Associação dos Empregados no Commercio (O Paiz, 2 julho 1916). Executaram em parceria as músicas Saudade de São João Del Rey, serenata de Brant Horta e Esmeralda, scothisch de Ernani de Figueiredo.

Em 26 de fevereiro de 1917 o violão brasileiro perdia um de seus maiores divulgadores, o maestro Ernani de Figueiredo. Dias antes fora acometido por forte crise de uremia, logo após ministrar uma aula de violão. Ao ser atendido por uma ambulância, o médico constatou a gravidade de seu estado, julgando melhor que não fosse removido para sua residência em Jacarepaguá (A Noite, 27 fevereiro 1917). Foi então para a casa de um amigo que morava na Glória, mais precisamente na rua Barão de Guaratiba nº 18 (Correio da Manhã, 27 de fevereiro de 1917, actos funebres).

Repercussão da morte

Na ocasião o Jornal do Commercio (Fallecimentos, 27 de fevereiro de 1917) assim se manifestou: “Falleceu hontem, com grande sorpresa para seus amigos e apreciadores, o Maestro Hernani Figueiredo, músico dos mais distinctos e paladino incansável do violão, instrumento de que era exímio tocador” (sic).

Tal notícia mereceu destaque na primeira página do jornal Rio de Janeiro, da cidade de Campos, do dia 28 de fevereiro (“O Violão perdeu o seu máximo cultor”): “Falleceu no Rio, repentinamente, o nosso estimado conterrâneo Ernani Figueiredo, moço que dedicou ao violão todo o ardor de sua alma de mestiço e que, ao lado de Brant Horta, trabalhava com ardor para que o violão conquistasse o logar de honra a que tem direito e o destaque que hoje tem.” (sic) O enterro foi realizado no dia 27 de fevereiro, às 17, horas no cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo, saindo o féretro da rua Barão de Guaratiba.

Foi de fato uma morte não anunciada, pois o maestro encontrava-se em plena atividade. Ocupava o cargo de amanuense no Correio Geral, onde entrou através de concurso. Pouco menos de uma semana antes do ocorrido, se apresentara na Associação Brasileira de Imprensa, com grande êxito. Deixou também um tratado inédito de harmonia que pretendia ver publicado e o texto de uma conferência que seria realizada em Campos, historiando seu trabalho em prol do violão.

 

Bibliografia

Domingos Prat  - Diccionario de Guitarristas

Vicente Marins Rangel Junior - Recortes da Memória Musical de Campos,1839-1965 (Edições Damadá, 1992)

Jota Efegê Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira (Edições Funarte, vol II, 2ª edição, 2007)

Márcia Taborda. Violão e Identidade Nacional (Funarte, 2012)

 

Composições

Não existem gravações de nenhuma das obras do maestro Ernani Figueiredo, e das partituras se tem notícia de apenas duas. Ou seja, a maior parte da obra do compositor e violonista se perdeu. Esta relação foi obtida a partir dos programas de apresentações publicadas em jornais e de partituras no acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ).

Impromptu Pathetique

Enchanteresse-Fantasia de concerto

Souvenir

Habanera

Romance Sans Paroles

Nair.  Marcha-partitura, acervo MIS.

Deusa dos Bailes. Partitura acervo MIS

Zizinha

Esmeralda

 

Mais apresentações de Ernani de Figueiredo

·         Programa do concerto realizado em 14 de agosto de 1910 no salão nobre da Real Sociedade Club Gymnastico Portuguez em benefício do guitarrista português J P de Magalhães Peixoto

1ª parte:

i) Beethoven - Allegro, da Sonata em Fá - Transcrita para violino, flauta e violão e executada pelos maestros Francisco de Magalhães, Henrique de Oliveira e Ernani de Figueiredo

ii) A. Cano - Andante Apaixonado - Solo de guitarra pelo prof. F. Catton

iii) Carlos Garcia Tolsa - Entre dos Luces, habanera - para violão, por J P de Magalhães

iv) E. Becueri- Pegière - Solo de violino pelo maestro F Magalhães, com acompanhamento de violão pelo maestro Ernani de Figueiredo.

v) Peixoto, Firmeza - Valsa Concertante para Guitarra - pelo autor.

vi) Carlos Garcia Tolsa -  Mathilde, mazurca de concerto para guitarra e violão, pelo prof F. Catton e maestro Ernani de Figueiredo. (sic)

 

2ªParte:

ii) Louis Emma - Fantasia Espanhola - para dois violões, pelo maestro Ernani de Figueiredo e Donasi Gregory.

iii) Fado, maior e menor - para guitarra, por J P de Magalhães.

iv) A. Jimenez Manjón - Recuerdo de Mi Patria - mazurka de concerto, para violão, pelo maestro Ernani de Figueiredo.

v) Lucena- Pavana - para guitarra e violão, pelo prof. F. Catton e maestro Ernani de Figueiredo.

vi) Lemos, Judith - Gavotta para guitarra - por J P de Magalhães Peixoto. (sic)

 

·         Concerto em 08/09/1911, em benefício da Igreja Presbiteriana, na Associação dos Empregados no Commercio - Ernani de Figueiredo participou executando ao violão as seguintes peças: Fantasia de Concerto, de Hermann Bangart; Serenata, de Francisco Braga e Habanera, de sua autoria (O Paiz, 10 de setembro de 1911, vida social-concerto, página 3)

·         Concerto na Festa de inauguração do Grupo das Borboletas, filiado ao Meyer Club (30/03/1912) – Ernani de Figueiredo tocou as seguintes músicas: Romance Sans Paroles, de sua autoria, para flauta e violão, executada por João Jupyaçara Xavier e o próprio autor, e Fantasia de Concerto, de Ernani de Figueiredo, solo de violão pelo autor (O Paiz, 30 março 1912, página 5).