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Satyro Bilhar

Nascimento: 04/04/1862

Falecimento: 24/10/1926

Natural de: Crato (CE)

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Discografia

Por JORGE CARVALHO DE MELLO

Um dos primeiros violonistas brasileiros e autor do clássico choro Tira Poeira, Satyro Bilhar é também dos mais famosos personagens da boemia carioca. Mas quase todos os documentos a seu respeito desapareceram, inclusive as músicas que compôs. Da sua imagem, só há uma foto, em formato semelhante a 3x4. Por isso, o caráter pitoresco da sua vida e a histórias lendárias na vida social são bem mais lembradas do que as atividades de músico, além das dedicatórias de amigos compositores, que depois se tornariam gênios da música.   

Ernesto Nazareth, por exemplo, dedicou o choro Tenebroso, editado pela primeira vez em 1913, ao “bom e velho amigo Satyro Bilhar”. Também Villa-Lobos afirmou que o movimento Fuga, da Bachiana nº1 para Orquestra de Violoncelos deve ser ser tocada “à maneira de Satyro Bilhar”. Catulo da Paixão Cearense dedicou-lhe a letra de sua composição Perdoa, em parceria com Anacleto de Medeiros.

No livro O Choro, Alexandre Gonçalves Pinto ressalta:“Catulo e Bilhar era uma dupla respeitada pelos chorões da velha guarda. Havia entre ambos uma grande amizade e, por conseguinte, em todo o choro que estava Catulo, estava também o Bilhar”. Foram parceiros no lundu Gosto de Ti Porque Gosto e na modinha As Ondas São Anjos que Dormem no Mar e Quem te Fez Tão Bela e Pura. Mário Pinheiro gravou, possivelmente em 1908, o lundu pela Victor Record.

Pais e irmãos

Filho do Major Joaquim Lopes Raimundo Bilhar e de Isabel Bilhar de Alcântara, Satyro Lopes de Alcântara Bilhar teve como irmãos Joaquim, Anna, Alexandre e Epifânia, dos quais se destacaram Joaquim Lopes de Alcântara Bilhar e Anna de Alcântara Bilhar. Joaquim foi bacharel em Direito, promotor público, juiz, professor da Faculdade Livre de Direito do Ceará e membro fundador da Academia Cearense de Letras. E Anna foi uma famosa educadora e diretora do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Fortaleza, que depois se mudou para o Rio de Janeiro e contribuiu decisivamente para a formação de muitas senhoritas da fina sociedade da época, no pensionato que tinha na rua Desembargador Isidro, 32, na Tijuca.

Sua sobrinha Branca Bilhar (filha de Joaquim Lopes de Alcântara Bilhar e de Cândida de Alcântara Bilhar), foi pianista, e, por duas vezes, obteve medalha de ouro no Instituto Nacional de Música, também ministrava aulas de música no pensionato, onde também se discutia literatura e política. A mais destacada aluna de Branca foi a então jovem Eunice Monte Lima, que se tornou conhecida como Eunice Katunda. (Anna Bilhar empresta seu nome a uma das ruas mais importantes de Fortaleza).

Casamento e vida social

Em dezembro de 1880, já residindo na cidade do Rio de Janeiro, Satyro Bilhar se casa com Etelvina Clotilde Marins Garcia (O Apóstolo, 29 de dezembro, página 2), e, por essa época, começa a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil.

A participação de Satyro na vida social do Rio no final da monarquia foi intensa: em 1886, ele aparece como secretário do Club Familiar Vinte de Maio, convocando os sócios para uma reunião familiar. (Gazeta de Notícias, 9 de outubro de 1886, página 3). No final do ano seguinte se torna membro fundador e secretário de uma sociedade chamada de Congresso dos Democratas (O Paiz, 10 de outubro de 1887, página 2); e, em 1888 é eleito conselheiro da mesma associação (Diario de Noticias, 27 de fevereiro de 1888, página 1).

Telegrafista

Em 1891 recebe a nomeação de Telegrafista de 1ª Classe da estrada de Ferro Central do Brasil (Diario do Commercio, 13 de maio de 1891). No dia 21 de janeiro de 1893, participa de homenagem prestada por amigos a Manoel Eduardo de Castro Leal (fiscal da Intendência Municipal em comissão em Guaratiba), em sua residência na Ilha do Governador. Após os discursos, brindes e a entrega de uma caneta de ouro ao homenageado, seguiu-se um bem organizado concerto. Além de Satyro Bilhar, à época um requisitado professor de violão, participaram os seguintes músicos: o tenor Mariano Soares,  a violinista Joana Leal de Barros, e a pianista Brasilina Augusta Leal (Diario de Noticias, 23 de janeiro de 1893, página 2).

Satyro participou ativamente do processo de reerguimento da sociedade musical, dançante e literária Odeon Fluminense, sendo eleito seu procurador e membro da comissão de estatutos. A reinauguração dessa associação se deu em março de 1894, e, após a solenidade, houve um grande baile. (O Tempo, 23 de fevereiro de 1894).

Mais concertos

Em 1896, Satyro Bilhar foi eleito secretário da Caixa Auxiliar ao Pessoal do Telégrafo (Jornal do Brasil, 13 de maio de 1896), e, no mesmo ano, participou da festa de aniversário da senhora Nedrão Dias da Cruz, presenciando um concerto que se iniciou com a Fantasia Sobre o Hino Nacional Brasileiro, executada pelo pianista e compositor Ernesto Nazareth (Liberdade, 31 de outubro de 1896).

Em novembro de 1901, Satyro presenciou concerto organizado em 15 de novembro pelo pianista e funcionário municipal José Ferreira Torres, em comemoração ao aniversário de sua esposa, Ambrozina Torres. De tal evento participaram a maestrina Joanna de Barros, Francisca Romualdo, Brasilina Leal e Sylvia Lemos e os professores Pedro de Alcântara, Joaquim Francisco dos Santos (Quincas Laranjeiras), Mario de Oliveira, João Reis e Albano Raposo.

Branca Bilhar e aniversários

Sua irmã Anna Bilhar e sua sobrinha Branca Bilhar chegaram ao Rio de Janeiro em 1906, onde passam a morar. Após a morte de Joaquim Lopes de Alcântara Bilhar (pai de Branca) em 1905, Anna assume a orientação da carreira artística de sua sobrinha Branca. (Gazeta de Noticias,13 de maio de 1906, página 7).

Em 1907, em outra comemoração do aniversário da esposa do pianista José Ferreira Torres, Satyro Bilhar toca violão em sarau musical com as participações de Jane Murta (cantora), Clemencia Rocha (pianista), Janequinha Leal (pianista e compositora) e de Valeriano do Couto (flautista), Aurélio Cavalcante (compositor), Castro Afilhado, além do próprio dono da casa, o pianista José Ferreira Torres. Em seguida a essa apresentação, realizou-se um baile animado por um quarteto formado por Fonseca Costa (piano), Henrique Dourado (flautim), A. Fragoso (violão) e A. Luiz (cavaquinho) (Jornal do Brasil, 17 de novembro de 1907).

Em várias outras ocasiões, os aniversários de José Ferreira Torres, em 22 de dezembro, e da esposa Ambrozina foram comemoradas com jantares seguidos de saraus musicais, e, em muitas dessas ocasiões, estava Satyro Bilhar. É bem provável que José Ferreira Torres seja o pianista e compositor J. Torres que aparece no livro O Choro, de Alexandre Gonçalves Pinto. (O Choro - Alexandre Gonçalves Pinto - 2ª Edição Funarte, página120).

Em 10 de janeiro de 1909, Satyro Bilhar discursou à beira do túmulo do cavaquinista e compositor Mario Alvarez, enaltecendo as qualidades do músico. Presentes à cerimonia, entre outros, Quincas Laranjeiras, Catulo da Paixão Cearense e José Fragoso. (Correio da Manhã, 12 de janeiro de 1909).

Presidente

Em 22 de janeiro desse mesmo ano, na comemoração do aniversário de Nininha Bastos, filha do Coronel Gaspar de Araújo Bastos, no sarau musical que se seguiu ao jantar oferecido aos convidados, houve audição musical com pianistas, violonistas, violinistas e cantores conhecidos – entre os quais  Satyro Bilhar, que se apresentou ao violão cantando sua composição Gosto de Ti Porque Gosto. (Jornal do Brasil, 24 de janeiro de 1909, página 6). Em outubro, o músico  assumiu a presidência da Caixa Telegráfica da Central do Brasil, em substituição a Júlio Mendes Pereira.

Em 11 de julho de 1910, o doutor Cândido de Hollanda da Costa Freire, que era lente professor do Colégio Militar, comemorou aniversário promovendo concerto, seguido de danças – do qual participou Branca Bilhar, tocando ao piano a Melodia Romântica, de Moffat. Nos intervalos das danças, os alunos Octavio Mariath e Telmo Borba cantaram modinhas conhecidas, acompanhados ao violão por Satyro Bilhar (Correio da Manhã, 14 de julho de 1910, página 4).

Aposentado

Em 1912, em edição de 28 de abril, o jornal O Paiz publica a seguinte nota: “Solicitou aposentadoria no lugar de Telegrafista de 1ª Classe da Estrada de Ferro Central do Brasil, depois de um exercício de 35 anos de bons serviços públicos o sr Satyro Lopes de Alcântara Bilhar. O zeloso funcionário, durante esse  tempo de exercício, não gozou uma só licença”.

Sobre essa aposentadoria o jornal A Noticia, em edição de 11 de junho de 1912, informou: “Mais uma aposentadoria na Central - a do zeloso telegrafista de 1ª classe Satyro Lopes de Alcântara Bilhar, que contava com mais de 36 anos de excelentes serviços prestados a EFCB. Trabalhador dedicado, o Bilhar - como era mais conhecido - nunca solicitou uma licença, trabalhando todo aquele tempo sem dar o menor sinal de fadiga-um incansável, o Bilhar”.

Em 4 de novembro de 1913, foi realizado no Centro Gallego do Rio de Janeiro, que funcionava no sobrado da rua da Constituição, 28, um importante evento musical de cunho fortemente nacionalista. O evento começou com a conferência O  Choro Nacional, proferida por Aristhides M. Lopes. Em seguida foi apresentado um programa variado de canções, solos de violão e solos de bandurra no qual participaram Lili Ramos, Catulo da Paixão Cearense, Juvenal Fontes, Vicente Gagliano, Satyro Bilhar, João Pernambuco, Quincas Laranjeiras, Julio Braga, Nicolino Sarly e Álvaro Amorim. (Jornal do Brasil, 7 de novembro de 1913, página 8).

Ainda em 1913, no final de dezembro, foi realizado um grande baile em benefício do compositor e pianista Sinhô, no Congresso dos Bohemios, que se localizava na rua Uruguaiana, 107. Participaram deste evento os violonistas João Pernambuco, Henrique Vianna, Léo Vianna, Tute e Jordão; os flautistas Alfredo Vianna (pai de Pixinguinha) e Bismarque; o pistonista Bonfiglio; os cavaquinistas Chico e Dodô; o violinista Freitas; o bandurrista Betinho; o trombonista e pianista Candinho; o contrabaixista Conceição; e os clarinetistas Couto Xavier e Irineu de Almeida.

Também se apresentaram Catulo da Paixão Cearense, cantando ao violão suas canções, o barítono Octavio Vianna (irmão de Pixinguinha) cantando composições do músico e poeta cearense, e o velho e estimado Satyro Bilhar, interpretando ao violão a modinha de sua autoria Quero-te Bem Porque Quero. Em seguida, o homenageado Sinhô executou ao piano o tango Está Errado (que era um dos bordões do Bilhar), oferecido ao amigo. (Jornal do Brasil, 20 de dezembro de 1913, página 12).

Em 1915, o conhecido agente de teatro José Sérgio comemorou o aniversário da filha, em 28 de julho, oferecendo sarau musical em que se apresentaram, entre outros, Castro Afilhado, ao violão; Carlos Vasques, cantando modinhas; e Satyro Bilhar tocando, ao violão e piano, Gosto de Ti Porque Gosto (Jornal do Brasil, 31 de junho, Notas Sociais, página 16) . Nesta nota, um ligeiro perfil de Satyro é traçado:“O sr Satyro Bilhar, uma figura popular, simpatizada pelo seu gênio alegre e por outras qualidades morais que o elevaram na carreira de funcionário publico e no conceito de seus amigos, também esteve presente”.(sic)

Em janeiro desse ano, em época de preparativos para o carnaval, a Gazeta de Noticias deu a seguinte nota sobre o grupo Namorados da Lua:“ Os serestas carnavalescos, doutores no pinho e mestres no canto são os seguintes: Satyro Bilhar, Carlos Vasques, Vicente Gagliano, Antonio Palmieri e Pedro Galdino. Os ensaios são realizados na rua José Vicente nº74, no Andaraí Grande” (Gazeta de Noticias, 27 de janeiro de 1915).

Estado de saúde

Em 12 de março de 1926, o jornal Gazeta de Noticias publicou nota na qual informa “melhoras no estado de saúde do conhecido violãonista (sic) Satyro Bilhar, que se acha recolhido à sua residência na rua Tavares Ferreira nº 68”.

Na manhã de 23 de outubro o desfecho fatal: Satyro Bilhar morreu em casa, em função das “graves e rebeldes enfermidades que ultimamente lhe minavam o organismo”(Gazeta de Noticias, 24 de outubro de 1926, página 4).

No obituário, as qualidades de Bilhar são realçadas:“No Brasil inteiro talvez não houve um só dos cantadores ao violão, no bom tempo, que não tivesse dito a lua ou nas salas, ao arpejo do instrumento essa (Gosto de Tí Porque Gosto) que era a predileta do Bilhar, conhecedor perfeito de todos os segredos desse instrumento, que tinha garbo em fazer ouvir, quer como solista, quer como acompanhador, quando era então emérito.Espirito boêmio, não deixou por isso de ter sido um funcionário exemplar, sem uma falta sequer, até que os médicos exigiram o afastamento do cargo que ocupava”.

Crônica de Catulo sobre Bilhar

Em 27 de janeiro de 1925,  quando Satyro Bilhar já estava adoentado, o grande amigo de longa data, Catulo da Paixão Cearense escreveu no Jornal do Brasil uma crônica intitulada Quem te Fez tão Bela e Pura. “ - Porque vejo nos teus olhos um luzeiro que me guia - Quem, há tantos anos volvidos não ouviu estes versos cantados ao violão pelo meu velho amigo e companheiro Satyro Bilhar, o grande Bilhar, irmão de ôpa de Paula Ney, Figueiredo Coimbra, Pardal Mallet, Guimarães Passos e outros boêmios de talento que os almofadinhas da atualidade só conhecem de nome ou nem isso, e não sabem o que foram esses heróis das noites daquelas serestas espirituais.

Quem nunca ouviu aqueles versos desabrocharem da boca do glorificado trovador, angelizados pelo doinare dos acordes que só ele, ele só, somente o velho Bilhar sabia imprimir nas caricias do seu violão- o sultão das salas festivas e do silencio harmonioso e estrelado das serenatas de outrora?

Quem não se recordará da melodia daquelas decimas do nosso Bilhar, o antigo chefe de telegrafia da Estrada de Ferro, o Caruso do célebre Gosto de Tí Porque Gosto... O mais conhecido, o mais adorado dos noctâmbulos, o apaixonado da lua e que hoje só encontra refrigério para a saudade num chopp servido dozimetricamente às 4 horas da tarde na Confeitaria Paschoal, na rua do Ouvidor?

Pois aqui vão estas que fiz há mais de vinte anos e que foram cantadas por mim e por ele com a mesma musica, que é sua e que nunca foram publicadas”(sic)

Catullo publica na continuação do artigo, a letra inédita de sua autoria para a música - também inédita de Satyro Bilhar, da qual infelizmente não se tem registro fonográfico ou mesmo partitura. A letra de Quem Te Fez Tão Bela e Pura começa assim:

“Quem te fez tão bela e pura

Fascinante de primores

Meiga estrela de candura

Resplendendo em céu de amores?”

Morte

Na semana seguinte ao trágico acontecimento, o Correio da Manhã, 31 de outubro de 1926, suplemento) publicou, um esboço biográfico do Bilhar, no qual ressalta que o músico transitava em várias esferas sociais, construindo solidas amizades: “Alma de artista, são inúmeras as composições do Bilhar para violão, de que era exímio estilista e profundo conhecedor e de quem é digna e inteligente continuadora essa extraordinária artista que é Branca Bilhar. Bilhar também tocava piano, mas só produções suas: uma valsa, um Schottisch e uma polca...com essas três musicas era capaz de fazer uma festa a noite inteira.mas a primeira coisa que fazia ao sentar-se ao piano era cantar a modinha de sua predileção: Gosto de Tí Porque Gosto.

Ainda no mesmo artigo era realçado o seu forte sotaque nordestino, assim como sua branda gagueira, explorada ao extremo no diálogo que manteve com o Vagalume (leia ao final deste verbete). A enorme facilidade em fazer amigos foi também comentada:“Bilhar, onde quer que aparecesse, fazia logo uma roda de amigos, explodindo de quando em quando uma sonora gargalhada em consequência dos casos que contava. - Minha Nossa Senhora!- era a frase que ele mais empregava a propósito de tudo”.

Eunice Katunda

No livro de Carlos Kater sobre Eunice Katunda (Eunice Katunda: Musicista Brasileira - São Paulo, Fapesp, 2001) aparece publicado um depoimento de Eunice sobre Satyro:“Sátiro era extraordinário violonista, compositor e poeta. Lembro-me de uma visita sua às irmãs Don`Anna e Epiphania, velhinha apaixonada e entusiasmada. Recebido com grande alegria, pois raramente aparecia por lá, Sátiro demorou-se numa animada conversa depois da qual nós todas lhe pedimos que tocasse alguma coisa.

Logo se organizou a audição improvisada. Sátiro, abraçado no violão, feriu os primeiros acordes que ecoaram no silêncio da grande expectativa. Sua voz já alquebrada ergueu-se comovida e os dedos nervosos foram despertando uma a uma as mais profundas e ignoradas emoções de nossa sensibilidade de adolescentes.

O ambiente tornou-se quase solene e, surpresas, as mais velhas viam refletir-se, nos olhos das mais jovens, as lágrimas comovidas. A suavidade da mais brasileira das músicas envolvia tudo, despertando velhas lembranças e jovens esperanças. Duas destas canções permaneceram na minha memória. A última estrofe da primeira dizia:

Ai com que dor e com que pena

Deixo, saudoso, os lares teus

Ouvindo a tua voz amena

Despetalando um terno adeus.

Fica este adeus repercutindo

No meu cansado coração

Como um cristal que alguém ferindo

Geme em sonora vibração.

A segunda eu logo aprendi, ouvindo Branca tocá-la num arranjo para piano feito por ela e que, infelizmente, nunca chegou a ser escrito”.

Talvez por esse motivo, por essa amizade tão longa, sincera e dedicada a Satyro Bilhar, coube a Catulo da Paixão Cearense escrever longo artigo sobre o músico que acabara de morrer. (Gazeta de Noticias, 7 de novembro de 1926, em Literatura e Belas Artes, página 10).

Diálogo pitoresco entre Bilhar e Vagalume

Satyro Bilhar era muito amigo do jornalista Francisco Guimarães, mais conhecido pelo apelido de Vagalume, apelido que lhe foi dado na época em que  fazia as reportagens da série Ronda da Madrugada. Tal conversa foi publicada no Jornal do Brasil, em 12 de fevereiro de 1915: 

Seriam umas 15 horas quando subíamos apressados à rua do Ouvidor e nos esbarramos com o Bilhar, que, endireitando o pinci-nez, nos disse:

- Vo...você está errado, seu Vagalume!

- Errado?

- Por essa luz... pois você que é do... do... do coração do Bilhar ainda não deu u... u... uma no... no... notícia do nosso cordão?

- Porque não sabia que você tem um cordão.

- Por Deus que tenho. Va... va... vamos sair nos três de... de... de carnaval!

- E o pessoal é bom?- Virge Maria! São todos ba... ba... batutas, nêgo velho! Tudo ali é astro de pri... pri... pri... primeira grandeza!

- Oh! Da região etérea, das regiões des... desco... desco... desconhecidas. Olhe! Eu, Nozinho, Vicente Gagliano, Heitor Costa, Horácio Foguete, Antônio Palmieri e Antônio Baptista. Que choro, nêgo bom! Violões, cavaquinhos, mo... mo... modinhas, enfim, é... é... é sucesso pra esquecer as agruras da vida. Que... que... que ninguém sabe mais do... que você que trinta e cinco anos naquela ca... casa sem faltar um dia, não é vida! Nó... nó... nós vamos lá no... no... no jor... jor... Jornal do Brasil te cumprimentar por... por... porque o guima velho é do co... co... coração do Bilhar.

- E se houver rolo, Bilhar? - De... de... deus me livre! Com... com essa idade nunca ti... tive na... na... nada com a po... po... polícia, nem mesmo testemunha. Você viu por aí o... o... o Bôscoli? Vo... vo... vou tomar um di... di... dinheiro na mão dele porque o tesouro não me paga há oito me... meses”. (sic)

Músicas  

Sobre o tamanho e a importância da produção musical de Bilhar, as opiniões são as mais diversas. O compositor e violonista Donga (Ernesto dos Santos), em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 02 de abril de 1969 assim afirmou: “O seu repertório se resumia a quatro músicas, mas como se desdobravam… Por exemplo: Tira Poeira ele tocava como choro, depois repetia a música como valsa. Ele mudava a harmonia. Dali a pouco tirava uns sons de harpa. Assim ele fazia o baile. Desenvolvia os temas. Com quatro músicas ele acabava com o baile.”

No já citado artigo escrito no jornal Correio da Manhã, lê-se: “São inúmeras as composições de Bilhar para violão… Também tocava piano, mas só produções suas: uma valsa, um schotisch e uma polca. Com estas três músicas era capaz de fazer uma festa a noite inteira”.

Alexandre Gonçalves Pinto no livro O Choro assim se manifestou:“O Bilhar também conhecias as músicas clássicas e tinha produções suas como Harpejos e Melodias…”

Era um encanto vê-lo tocar sua tradicional polca Tira Poeira. Orestes Barbosa no livro Samba (Edições Funarte, 1978, página 37), assim refere aos tempos antigos:

“Um olhar para trás.
O Rio antigo.
O cantor de serenatas.
Os ternos.
Flauta, violão e cavaquinho.
As serestas, desde Xisto Bahia.
Eduardo das Neves.
Os lundus de Satyro Bilhar…”

Divergências sobre o violonista Satyro

São divergentes as opiniões em relação ao Satyro Bilhar violonista. Como se pode perceber em depoimentos de seus contemporâneos: “Ele não era um grande violonista, mas arranjou um som… tem umas pessoas assim, repare que o canhoto tem uma forma de tirar som diferente de nós, que usamos a mão direita. Não sei porquê a sonoridade dele é mais agradável. O cego também está nesse caso. Então o Bilhar ficou entre essas duas coisas, fugindo de nós. O som que ele tirava era bonito” (Donga-Depoimento MIS).

“Embora não fosse um virtuose do violão, todos pareciam acreditá-lo quando se punha tocar. Chegou-se a dizer que era o melhor violonista da época e que a única pessoa que poderia rivalizar com ele seria sua discípula Lili São Paulo” (Ary Vasconcelos. Op. Cit).

“O Bilhar era um chorão que tinha primazia entre outros chorões nos acordes, nas harmonias e no mecanismo de dedilhação com que manejava agradavelmente seu violão…as posições com que o Bilhar tirava seus acordes eram tão difíceis que só ele sabia fazer” (Alexandre Gonçalves Pinto-Op.Cit.).

Neste mesmo livro, ao se referir a Lili São Paulo o autor relata: “Lili, sendo uma companheira de choro do sempre lembrado Bilhar, que era o rei dos acordes, com ele muito aprendeu, de modo que quem escuta Lili logo diz: ali está o Bilhar”.

 

Composições:

Tira Poeira

Gosto de Ti Porque Gosto

Quero-te Bem Porque Quero

As Ondas São Anjos que Dormem no Mar

Quem te Fez Tão Bela e Pura

Estudos de Harpa (para violão)

O Que Vejo em Teus Olhos

Tu És uma Estrela

 

Referências Bibliográficas:

Enciclopédia da Música Brasileira (Erudita, folclórica e popular)