Voltar

Trio Opus 12 inicia turnê de lançamento do novo CD, Divertimentos

Postado em Lançamentos em 24/09/2015

Tudo pronto para o início da turnê do Trio Opus 12, formado por Paulo Porto Alegre, Chrystian Dozza e Daniel Murray, com repertório impecável do novo CD, Divertimentos. Certamente é dos melhores lançamentos de violão camerístico da década. O grupo pega a estrada começando pelo interior de São Paulo. Nesta sexta-feira (25), eles tocam em Guaratinguetá (Espaço Vivarte, às 21 horas). No sábado (26) seguem para o Teatro do Conservatório de Tatuí, às 19 horas. E na segunda-feira (28) se apresentam no Espaço Cachuera, às 21 horas na capital paulista. O Acervo participa da empreitada, oferecendo três faixas para audição. Clique aqui e ouça Fuga Funk, de Paulo Porto Alegre, Maracatu da Pipa, de Paulo Bellinati, e o forró Bate-Coxa, de Marco Pereira.

O Trio Opus 12 foi criado em 1977 por Paulo Porto Alegre, Oscar Ferreira de Souza e Clemer Andreotti, e foi o primeiro grupo brasileiro nessa formação. Em 1982, gravou o primeiro LP Trio Opus 12, com obras originais para trio de alaúdes e peças do período clássico e moderno. O título é histórico, pois representa o primeiro disco independente de música erudita no país.  Em 2006, gravou o CD duplo Retratos de Radamés, com o Núcleo Hespérides de Música Contemporânea das Américas.

Atualmente o trio se dedica a um repertório contemporâneo de compositores violonistas brasileiros nascidos no inicio da década de 50 (Sergio Assad, Paulo Bellinati, Marco Pereira e Paulo Porto Alegre). Esses compositores tiveram em comum uma formação erudita e popular que os notabilizou como os mais importantes de sua geração.

Leia a seguir os textos do encarte do novo CD. O primeiro deles é um perfil do grupo, assinados por Fábio Zanon. Nos demais, os compositores Sérgio Assad, Marco Pereira, Paulo Porto Alegre e Paulo Bellinati comentam suas obras interpretadas no disco. 

Textos do encarte do CD Divertimentos

O violão, na música clássica, é um instrumento que se excede na magia da sonoridade e charme da expressão, mas luta contra o determinismo das seis cordas quanto mais complexa a música fica. Juntar dois ou mais violões - na verdade dois ou mais alaúdes, desde o século XVI - parece um caminho óbvio para se aumentar o acesso a recursos de composição mais sofisticados sem perder a personalidade sonora; o ambiente do violão, que junta professor e aluno, marido e mulher, irmãos e amigos, colabora para a criação de combinações entre instrumentos idênticos, que não se observa com a mesma vitalidade criativa entre outros instrumentos. O desafio é se criar um senso de coesão musical ao mesmo tempo em que a personalidade de cada integrante se imprime na fisionomia sonora. Quanto maior o grupo, mais a última tende a se sacrificar em favor do primeiro, mas aqui a combinação é matematicamente perfeita.

O Trio Opus 12 emergiu de uma época de ouro do violão paulista na década de 1970, em que grandes talentos se nutriram de uma combinação vencedora de modernidade técnica e cultura musical. No país dos grandes duos, o Opus 12 era uma proposta nova e igualmente empolgante; a textura cerrada, dando um suporte aveludado aos agudos dulcíssimos de Paulo Porto Alegre eram, e são, uma experiência musical arrebatadora. Acho significativa a coincidência do surgimento, à mesma época, do D’Alma, um trio de jazz brasileiro que buscava uma espécie de riqueza sonora similar, em outro gênero.

O primeiro LP do Trio foi um marco, não só pela cuidada produção, mas por ser o primeiro LP brasileiro de música clássica independente, numa época em que gravar um disco comercial era um empreendimento de vulto. Aquele primeiro LP mostrou somente um segmento da trajetória do repertório do Trio. Se lá ouvimos música europeia original para trio, música antiga e um pouco de transcrição, aqui eles completam o círculo e fazem um CD, igualmente marcante, igualmente cuidado, igualmente único, com música brasileira original para trio (versões alargadas de composições pré-existentes, no caso de Bellinati e Marco Pereira). Nesse hiato de mais de 30 anos, dois dos integrantes originais foram morar na Alemanha, a formação evolveu com os anos, sempre com a linha contínua traçada por Paulo, e hoje conta com dois de seus ex-alunos mais criativos, Daniel Murray e Chrystian Dozza. No centro do triângulo, a experiência; na base, sangue jovem.

Sobre o repertório, poucas palavras. Paulo Porto Alegre é um compositor completo, posto a que chegou sem alarde; seu comando fluente da técnica acadêmica só se iguala ao humor com que dialoga com a música do século XX (que a Suite Modal ilustra tão bem). Sérgio Assad é uma referência para todos, por levar ao mundo sua música intransigentemente brasileira e polida com perfeição. E, finalmente, Paulo Bellinati e Marco Pereira, egressos, como Paulo Porto Alegre, das classes de Isaías Savio, cuja música adquire traços congruentes quando lida pelo Trio Opus 12. Fico contente por ver que o Trio Opus 12 pode, hoje, nos oferecer este retrato do ecumenismo musical, que, penso, ele ajudou a promover e deve se tornar a característica mais marcante da música de concerto no século XXI. (Fábio Zanon)

Suite Brasileira para trio de violões é a minha segunda suíte reunindo ritmos tradicionais brasileiros. Esta Suíte foi comissionada pelo departamento de Música da Columbus State University na Georgia (EUA) no ano de 2010. A peça reúne três importantes manifestações musicais tradicionais do Brasil. O maracatu oriundo de Recife, Pernambuco, a balada, uma forma de canção romântica urbana, e o choro, que é o mais versátil exemplo da música instrumental praticado no Brasil. (Sérgio Assad)

Bate-Coxa é baseado no folclore de uma região específica do Brasil e conhecido como forró. O forró é a mistura de diferentes ritmos nordestinos brasileiros como o baião, o coco, e o xaxado. Seu nome é uma abreviação de forrobodó, palavra utilizada no começo do século XX para designar bailes populares frequentados pela população mais pobre. Forró é um ritmo extremamente sensual. Essa dança envolve um casal dançando bem junto, com suas pernas entrelaçadas, movendo-se um contra o outro. Esse é exatamente o significado do título. A versão para trio de violões foi escrita a pedido de Paulo Porto Alegre. (Marco Pereira)

Tocata e Fuga Funk, foi uma obra escrita em 2005. Alia a idéia barroca de tocata e fuga ao ritmo irregular e dançante do funk americano e do samba. Os ‘Divertimentos para Trio de Violões’ surgiram como adaptação feita em 2014 sobre 10 dos ‘30 Duos Fáceis’ para dois violões, escritos em 2013. A princípio elaborados para trabalhar situações especificas encontradas na música para 3 violões, acabaram incorporados ao nosso repertório por sua leveza e qualidade melódica.

Suite Modal surgiu em 2014 como uma ampliação de 3 dos ‘24 Estudos Modais’ para violão solo (2011). Sua linguagem está baseada nos modos Lídio (Brumas) Simétrico (Tombeau de Messiaen – o 1º violão foi escrito por Sergio Assad) e Pentatônico (Five on Seven). Utilizo nesta Suíte o violão de 11 cordas que acrescenta uma tessitura e riqueza harmônica impossível de se conseguir com três violões de seis cordas. (Paulo Porto Alegre)

Maracatu da Pipa foi uma obra encomendada pelo Appassionata Trio da Inglaterra, um trio feminino de violões, que gravou e estreou a peça em 2004 em Londres. Integra uma série de peças que chamo de Jogos de Rua, onde estilos musicais de cada peça são combinados com um jogo ou brincadeira de rua, infantil ou não.

O Maracatu é a mais descritiva delas; na introdução, imaginei meu filho na praia tentando fazer sua pipa voar. Este primeiro tema é sobre um Maracatu do Baque-Solto. No final, outros garotos chegam à praia com suas pipas, e começam a bricadeira de um tentar derrubar a pipa de outro. Essa disputa desemboca no movimento final, um Maracatu Rural, quase frevo, no dobro do andamento. Aqui as linhas se enroscam e as pipas mergulham e atingem o chão no acorde final.

Pingue-Pongue é o único maxixe-canon que conheço. Utilizando a técnica barroca de contraponto, escrevi uma linha melódica tocada por dois instrumentos (canon a duas vozes), sendo que o segundo instrumento começa a tocar atrasado, no caso, um tempo ou meio compasso depois que a primeira voz inicia. Não satisfeito com as duas vozes em canon tocando um maxixe em 3 partes, adicionei um terceiro violão que acompanha o “pingue-pongue” da melodia nessa empreitada. (Paulo Bellinati)