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Portal relança o raro e único LP do violonista e guitarrista pernambucano Ivinho

Postado em Discos em 16/06/2015
 
O lendário LP Ivinho ao Vivo em Montreux, lançado em 1978 pela WEA e nunca remasterizado em CD, agora pode ser ouvido integralmente na discografia do Acervo Digital do Violão Brasileiro, incluindo ficha técnica, rótulos e contracapa. O arquivo foi gentilmente cedido pela Bruxa do Vinil. Produzido por Guti, o disco foi gravado ao vivo em julho de 1978 durante a apresentação no 12º Festival de Jazz em Montreux. Todas as músicas são de autoria de Ivinho.  Morto no sábado (13), o violonista e guitarrista pernambucano foi o primeiro brasileiro a ser apresentar no festival. O músico, que em breve será verbete no dicionário do Acervo, também integrou o grupo recifense Ave Sangria e fez parte da banda de Alceu Valença nos anos 1970. 
 
 
Reproduzimos neste post para o perfil de Ivinho em artigo de José Teles (Jornal do Commercio PE), publicado no dia 13 de junho, além de uma entrevista que o músico concedeu ao Diário de Pernambuco, em janeiro de 2014.
 
Ivinho: a música brasileira perde um herói da guitarra
 
Por José Teles (Coluna Toques - Jornal do Commercio -PE) 13.06.2015
 
Ivson Wanderley Pessoa, Ivinho, guitarrista do Ave Sangria, faleceu nesta madrugada, no Hospital Otávio de Freitas, no Sancho,  em consequência de problemas no fígado. Ele estava com 62 anos. Participante da primeira noite oficial do Brasil, em 1978, no então seleto festival de jazz de Montreux , Ivinho teve sua apresentação lançada pela Warner Music, em 1978, num disco que continua inédito em CD, e é ítem de colecionador.
 
Ele se tornou músico aos 14 anos, incentivado pela mãe, que lhe presenteou com uma guitarra. Morador da Vila dos Comerciários, na Tamarineira, em 1969, tocava no grupo Os Selvagens, com o baixista Almir de Oliveira, do Ave Sangria. Os dois, mais Agrício Noya,Bira Total, Israel Semente e Paulo Rafael formaram o Tamarineira Village, em 1972. Em 1973, depois da feira de música de Fazenda Nova, o cantor e compositor Marco Polo entrou no grupo, que se tornou o Ave Sangria, e gravou , em 1974, o primeiro LP pela Continental. O disco seria proibido pela censura, e a banda terminaria no final daquele ano.
 
Ivinho integrou, em seguida, o grupo de Alceu Valença, com o qual gravou dois discos. Depois da participação no festival de Montreux, o guitarrista tocou com vários nomes então badalados da MPB, em palcos e estúdio. Acabou voltando ao Recife no começo dos anos 80. Em 1988, dividiu com o irmão Sinay Pessoa, o LP independente Caçador de frutas. Ivinho voltaria a gravar no coletivo A turma do beco do barato (2009) que reuniu músicos do chamado udigrudi pernambucano, e tocava em eventuais reuniões do Ave Sangria.
 
No ano passado, com a redescoberta do Ave Sangria, Ivinho voltou a se trabalhar intensamente com Marco Polo, Paulo Rafael, Almir de Oliveira, seus antigos parceiros dos anos 70, no Ave Sangria, que voltou para valer. Com dois discos lançado pelo selo Ripohlandya, que conseguiu os direitos de relançar o álbum de estreia do grupo, ao mesmo tempo em que recuperou as gravações do show Perfumes y Baratchos, de 1974, e o lançou em disco (CD e vinil, ambos). O Ave Sangria retomou a estrada de agenda cheia.  Tocará no dia 21 na Virada Paulista, em São Paulo. O grupo esperava voltar a estúdio este, com Ivinho, para gravar um disco e um DVD (um projeto que não foi aprovado no último edital do Funcultura).
 
 
Ex-integrante do Ave Sangria luta para recuperar a vida e a carreira
Após raras aparições, Ivinho apresentação instrumental neste sábado, em Olinda
 
Diário de Pernambuco (Publicação: 25/01/2014)
 
O primeiro brasileiro a subir no palco do Festival de  Montreux, na Suíça, em 1978, não foi Gilberto Gil, como erroneamente acabou sendo creditado na história de um dos mais importantes templos do jazz e da world music. Horas antes da apresentação do cantor baiano, um guitarrista pernambucano de semblante invocado entrou sozinho, empunhando  um violão de 12 cordas com um furo na madeira - apelidado depois de furiola, já que o rombo fora provocado por ele em um acesso de fúria.
 
Aos 61 anos, Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, mora sozinho no térreo de um cortiço alugado no bairro da Boa Vista, onde, 35 anos depois de surpreender o público suíço com improvisos de frevo e baião numa pegada setentista, tenta retomar a carreira e a vida dentro um universo particular, chacoalhado por problemas pessoais.
 
Ex-guitarrista da não menos lendária banda Ave Sangria, virou personagem mítico da música psicodélica brasileira, não apenas pela habilidade na guitarra, mas pelo sumiço incompatível com alguém comparado a músicos do quilate de Robertinho do Recife e Lanny Gordin. Após raras aparições, Ivinho faz apresentação instrumental neste sábado, em Olinda, dividindo o palco com a Anjo Gabriel, banda da nova safra de artistas influenciados pela geração udigrudi pernambucana. “Ele é um herói da guitarra. Tem a assinatura só dele  no jeito de tocar. O disco de Montreux é a prova disso”, diz Marco da Lata, baixista da Anjo Gabriel, falando do único registro solo em disco de Ivinho.
 
O músico vive da aposentadoria de um salário mínimo e, quando o bolso esvazia, pirateia os discos de que participou, vendendo as cópias para amigos e fãs. Almir de Oliveira, baixista da formação original do Ave Sangria e amigo de infância de Ivinho, se emociona ao lembrar do guitarrista: “Ivinho é único. Ele não perdeu o feeling, aquele estilo próprio, mesmo depois de todo esse tempo, de tudo isso. Um músico com a capacidade dele tem que trabalhar”.
 
Vestido de amarelo, como a personagem na letra Hei Man, do único disco do Ave Sangria, Ivinho recebeu o Viver para um entrevista em casa, onde, entre respostas sinuosas e raciocínio solto, demonstrou mais entusiasmo ao encerrar a conversa para tocar sua guitarra Memphis: “Música tem que ter três coisas: técnica, expressão e sentimento”.
 
Entrevista - Ivinho
 
Você continua tocando ou revisitou o repertório apenas para este show?
Às vezes, quando estou sozinho escutando alguma coisa, pego a guitarra, ligo no amplificador e saio acompanhado as imagens (da TV). Por exemplo, recentemente vi o DVD de João Bosco, a banda quebrando tudo, eu fui lá, botei o som da minha guitarra em cima e fiquei me divertindo. Ou deixo tudo no silêncio pra qualquer coisa que começar a surgir. Eu estou colocando (no show) o que eu já tinha feito. Porque nunca ninguém deu valor ao que fiz. Eu dei valor a quem ficou comigo. Eu me coloquei do lado de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho, Vital Farias, de Xangai, de Tito Lívio, de Ednardo. Foi sempre ao lado, mas eu nunca disse ‘eu fiz’, ‘eu vou mostrar’, ‘é assim’. Quando, na fase de mesa de bar, de caipirinha, de cervejinha, que a boca ficava solta no ar, as palavras saíam. Hoje em dia as palavras perderam o valor. Eu tou fazendo assim agora: passo a harmonia para os músicos da banda, aí eu coloco a melodia com harmonia entrosando. 
 
Mantém contato com os cantores que você acompanhou ao longo desse tempo?
É como dizia Erickson Luna (poeta, falecido em 2007): ‘Se você não vem ao meu, eu não vou ao seu’. Entendeu? É Alceu mesmo (falando de Alceu Valença). Nenhum deles fala mais comigo. Fica lá na ficha técnica dos discos. Guardo tudo de bom e de ruim daquele tempo, desde a mordomia na Suíça, sentado em cadeiras de veludo, até o Departamento de Tóxicos, Roubos e Furtos, clínicas, internamentos. Existe o lado bom da vida, que é a mordomia, e o lado ruim, que são as regras de estado: o filho fica com a mãe, a mãe morre e fica o filho, aí aparecem os irmãos, a divisão de imóveis, aí eu, puf, casei. Os bons momentos foram a Suíça, o Festival de Montreux, a burguesia, o avião, o hotel de luxo. O outro lado da realidade é uma paradinha chamada averiguação – espero que não exista mais essa palavra.
 
E sobre as drogas e os problemas que enfrentou... Chegou a ser diagnosticado?
De início, na cidade era muita cachaça, lá em Maria Farinha (onde viveu um tempo) estava cheirando muito pó, era muita doideira, muito isso, aquilo. Estava me tremendo todo. Ia ficar jogado na rua. Ninguém abria a porta pra mim. Agora, eu prefiro ter minha vida controlada. Quando vejo que estou com um problema, aperreado, eu falo com o menino do bar, levo três garrafas (de cerveja), faço um tiragosto, meto o volume lá em cima, tomo uma aqui e passo o dia sozinho com três garrafas de um litro, cada. Mas não faço isso todos os dias. Fiz isso ontem. Não quero fazer até o dia do show. Quero saber do repertório, dos ensaios. Fui para a fila da previdência social na época de Fernando Henrique Cardoso. Vi que a situação tava preta, entrei na fila, peguei esse papel. Um senhor que me ajudava uma vez me chamou para ajudar a preencher essa papelada. Eu queria saber onde me enquadrava. Afinal, tenho duas pernas, que funcionam. Ele resolveu colocar deficiente mental. Eu disse “legal, é isso mesmo”. 
 
Como começou essa fixação com a guitarra? Você é autodidata?
Eu não sou um grande guitarrista. Comecei tocando um violão de 13 cruzeiros. Tinha a banda Os Selvagens, de Casa Amarela. A gente tinha que tocar covers dos Stones, Beatles, do Creedence Clearwater. Aprendi a tocar escutando, tirando a base do ouvido, e Almir (de Oliveira, ex-integrante da banda) ajudava na pronúncia do inglês. Eu era da Vila dos Comerciários, e era lá que a gente ensaiava. Era banda para tocar em bailes. O Tamarineira Village (que deu origem ao Ave Sangria) veio depois. Marco Polo entrou para a banda, era um cara articulado, inteligente, e ficou com aquela história de ser líder da banda, mas existia uma competição entre ele e Almir, que era um cara mais na dele. Foi quando eu disse: ‘Eu não sou traidor. Dou apoio a vocês dois’. Aí Alceu Valença começou a querer Israel Semente (baterista da banda, já falecido)… 
 
Mas isso de Alceu foi depois do fim do Ave Sangria, não?
Não. O Ave terminou porque Alceu levou quem ele queria para a banda dele. Levou Paulo Rafael, levou Israel Semente, levou Zé da Flauta, levou Zé Ramalho, levou Lula Côrtes, levou Agrício Noya e me levou. Sobrou quem da banda? Marco Polo e Almir. Porque eram os protagonistas. Não interessavam. Eu não fiquei bajulando Alceu. Botei logo uma camisa com a inscrição ‘Abaixo o Folclore’ porque eu queria crescer o Ave Sangria, e Alceu queria crescer sozinho. E cresceu. Mas derrubou os dois (Marco Polo e Almir). Almir é engenheiro da Prefeitura de Olinda e Marco Polo desistiu da música, virou jornalista e foi arrumar emprego em jornal.
Foto Alcione Ferreira

 

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