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Pesquisador descobre em Portugal a primeira revista sobre violão do Brasil e conta sua história em palestra no Sesc SP

Postado em Coluna Alessandro Soares em 11/12/2019

(Trecho de partitura publicada no periódico O Guitarrista Moderno. Acervo particular Humberto Amorim)

Por Alessandro Soares

O violonista e professor Humberto Amorim passou os meses de abril e maio deste ano batendo perna em Alenquer e no Porto, em Portugal. E encheu os pulmões de poeira. Com fôlego pra seguir pistas remotas e faro privilegiado pra investigar, ele vasculhou inúmeros arquivos. E o que parecia impossível veio à tona. Ele garimpou 16 edições do periódico O Guitarrista Moderno, que foi lançado em 1857, no Rio de Janeiro, com a colaboração do músico espanhol Fernando Hidalgo. Essa história Humberto vai contar em palestra nesta quinta-feira (12/12) às 19h, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo.

Essa descoberta abre um novo campo de estudos na musicologia brasileira. Até então, pensava-se que o primeiro periódico publicado no Brasil era a revista O Violão, lançada em dezembro de 1928. A partir de 2015 algumas pesquisas revelaram a existência de O Guitarrista Moderno. Mas ter acesso ao conteúdo da revista era algo improvável.  Os exemplares que Humberto trouxe da viagem a Portugal são os únicos de que se têm notícia até o momento. Não há nada em acervos, sejam públicos ou privados, digitais ou físicos.

(Humberto Amorim)

Segundo Humberto,  O Guitarrista Moderno foi publicado pela Editora Imperial, Filippone & Tornagui, alcançando reverberação positiva nos jornais da época. A revista publicava geralmente duas partituras de violão em cada número. “Em quase todas as 12 edições levantadas, as peças são para violão solo. Em apenas uma edição, uma delas é uma peça para canto e violão. Ou seja, o foco era o violão solista”, conclui.

Humberto Amorim recolheu edições portuguesas e brasileiras de O Guitarrista Moderno. “A edição brasileira, a mais antiga, lançou ao menos 15 números (mais do que a Revista O Violão, só para comparar). Mas é possível que tenha havido mais edições, uma vez que não sabemos se o último número que eu levantei em Portugal é, de fato, o que encerra a publicação".

(Capa de O Guitarrista Moderno)

As partituras publicadas na revista são de arranjos de temas operísticos e danças de salão. Humberto separou cinco delas para tocar durante a palestra. São elas: A Filha do Regimento (Andante Coral); Meu Bem (Polka); A Soberba (Quadrilha); A Enfadadinha (Schottisch) e La Coquette (Polka-Mazurca). Todas compostas ou arranjadas por Fernando Hidalgo, que por sinal é um personagem alvo das pesquisas de Humberto. Leia artigo publicado na revista Vórtex sobre ele.

Humberto Amorim agradece especialmente ao professor e historiador português Antônio Manuel Nunes e aos violonistas e pesquisadores Tiago Morin e Belquior Guerrero, sem os quais seria impossível resgatar os documentos.

O Acervo Violão Brasileiro teve acesso exclusivo aos primeiros compassos da peça Meu Bem (Polka). Confira imagem no início deste texto. “Perceba que esta peça já começa com harmônicos em pedal. Há notas repetidas, ornamentos. E há outra, a Quadrilha, em que existem inclusive escalas cromáticas". Mas a análise das obras é tema para mais pesquisas. Assim Humberto Amorim faz uma verdadeira arqueologia musical e, aos poucos, vai preenchendo grandes lacunas da linha do tempo da nossa tão valiosa música.