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Os 60 anos de Fred Schneiter e o violão de orelha de onça

Postado em Cartas de amor em 21/10/2019

Os 60 anos de Fred Schneiter e o violão de orelha de onça - Duo Barbieri-Schneiter. Crédito: Silvana

(Duo Barbieri-Schneiter. Crédito: Silvana)

Por Marco Lima*

Especial para o Acervo Violão Brasileiro

Os vinis da minha mãe eram as referências que eu tinha sobre violão, incluindo Duo Abreu, Turíbio Santos, Baden Powell e outros grandes nomes. Eu mal tivera oportunidade de ir a apresentações do instrumento ao vivo. Até que um certo dia em 1997 assisti pela primeira vez ao duo Barbieri-Schneiter no Teatro Municipal de Niterói, no lançamento do CD Duo Barbieri-Schneiter 10 anos. Fui lá por recomendação de um amigo e me encantei. Aquele duo transitava pela música popular e clássica com precisão, desenvoltura, expressão e originalidade.

Embora já admirasse os Abreu e Assad, a impressão deixada por aquele concerto do Barbieri-Schneiter foi uma das razões que me impulsionaram a formar um duo de violão, logo que ingressei na faculdade (UNIRIO) junto com Thomas Saboga.

São essas e outras histórias que recordo ao ver no calendário o dia 3 de outubro, quando se completam 60 anos de nascimento do violonista e compositor baiano Fred Schneiter (1959-2001). Apesar de não ter tido o prazer de conhecê-lo pessoalmente, o impacto de seu trabalho foi grande na minha formação. Seja pela influência que tenho da obra e as performances dele ou pela importância dos concursos e mostras em sua memória na minha carreira de músico.

Os 60 anos de Fred Schneiter e o violão de orelha de onça - Fred Schneiter

(Fred Schneiter)

Santuário do Caraça

Além da atuação no brilhante duo com Luís Carlos Barbieri, Schneiter nos deixou um legado de composições e arranjo, sobretudo para violão solo e duo de violões. Assim que pude, comprei os três CDs gravados no Santuário do Caraça, que ouvi incontáveis vezes, e assisti a todos os concertos que pude. Já conhecia até as histórias que eles... quer dizer, que o Barbieri contava.

Após a morte do Fred, em 5 de maio de 2001, acompanhei de perto a carreira solo de Barbieri e a quem conheci pessoalmente nos eventos relacionados à fundação da Associação de Violão do Rio (AV-Rio), entre 2000 e 2001.

Em 2002, pouco mais de um ano após o falecimento de Fred, participei do I Concurso Fred Schneiter, organizado pela AV-Rio e pelo Teatro Municipal de Niterói. Esse evento foi responsável pelo meu primeiro contato como intérprete com a obra de Schneiter. Junto à minha professora Maria Haro, escolhi tocar Onde Andará Nicanor?, uma homenagem ao grande violonista e compositor, também baiano, Nicanor Teixeira.

Primeiro prêmio

Ali ganhei o prêmio de melhor intérprete da obra de Fred Schneiter. A peça me acompanhou em inúmeros concertos e concursos, sendo sempre muito bem recebida pelo público. Aliás, acredito que o grande motivo da realização dos Concursos Fred Schneiter é exatamente este, a difusão de suas obras. Se dentre os jovens participantes dos concursos, alguns seguirem tocando suas obras, estará plantada a semente.          

As exigências para participar do concurso são um estímulo a profissionalização dos candidatos. Para mim, foi uma verdadeira iniciação: a primeira vez que fiz uma gravação, a primeira foto para divulgação e a primeira vez que toquei no Teatro Municipal de Niterói (minha cidade), além de estar concorrendo com excelentes violonistas de todo o Brasil e de, junto com os outros finalistas, ter feito a estreia da Passacalha para Fred Schneiter, de Edino Krieger.

Depois participei dos II e III Concursos Fred Schneiter. No segundo eu bati na trave e fiquei na suplência para a semifinal. Iria adiante somente se alguém desistisse. Mas no terceiro consegui emplacar a primeira colocação e, novamente, a melhor interpretação da obra de Fred Schneiter, desta vez tocando a Suite Baiana.

Os 60 anos de Fred Schneiter e o violão de orelha de onça - Marco Lima

(Marco Lima)

Estrada Real

Em 2004, tive o privilégio de tocar com Barbieri no Quinteto Violão Real, que incluía também os violonistas André Porto, Fernanda Pereira e Gabriel Rocha Pitta (e depois, Humberto Amorim). O Quinteto surgiu junto com a ideia de fazer concertos em cidades por onde passa a Estrada Real, como Tiradentes (MG), Petrópolis (RJ), Mariana (MG), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ), o que chamamos de I Circuito Violão Real.

Durante os preparativos e no decorrer do Circuito, conheci um pouco da iniciativa e da forma sistemática e profissional como Barbieri conduz a própria carreira, realizando as próprias produções e eventos, uma qualidade, aliás, que ele conta ter aprendido com Fred. Considerando o tanto que o Barbieri faz pelo violão, organizando concursos, séries de concertos e a AV-Rio Social, entre outros projetos, esse é mais um legado que devemos ao Fred.

Violões

Aliás, foi na época do Circuito Violão Real que eu experimentei o violão que era do Fred, me lembro bem, um Sérgio Abreu com fundo e laterais de orelha de onça, que me impressionou muito pelo som brilhante e pela clareza das vozes.

Há dois anos, Barbieri estava ajudando a vender um outro violão Abreu (de 1991) muito parecido com esse, que foi de um aluno do Fred, que havia falecido. Fiquei encantado com o instrumento, levei para casa para experimentar um pouco mais e comparar com o Abreu (de 2006) que eu tinha e não consegui mais largar. Testei o violão na presença de alguns amigos e do próprio Sérgio Abreu e todos foram unânimes em afirmar que o violão combinava comigo. Tenho certeza que essa afinidade tem a ver com o tanto que ouvi os violões do Duo Barbieri-Schneiter.

Voltando ao ano de 2004, participei da I Mostra Fred Schneiter, na Sala Guiomar Novaes, com Barbieri, Fernanda Pereira e André Porto, realizada em apenas um concerto, mas que foi o pontapé inicial para esse que é, graças ao incansável Barbieri, um dos maiores eventos de violão do Brasil.

A falta de patrocínio sempre foi desafiadora, mas nunca foi empecilho. Todos os anos, os amantes do violão se reúnem na Mostra e no Concurso Fred Schneiter para assistir a grandes nomes e jovens talentos do instrumento e para homenagear os nosso compositores.

Contando com apoiadores e com os Amigos da Mostra, Barbieri vem conseguindo montar a cada ano uma bela e diversificada programação, de altíssimo nível, com músicos de vários estados brasileiros e de muitos outros países, como Argentina, Uruguai, Alemanha, México, França, Itália, Paraguai, Venezuela, entre outros, propiciando encontros de diferentes culturas e estilos musicais ao redor do violão.

A cada edição, fica a certeza de que um pouco da história do nosso violão está sendo preservada, que se renova o interesse pelo instrumento e que novas gerações de violonistas são reveladas.

*Marco Lima é é doutorando pela UFRJ e mestre em música pela UNIRIO e pela Hochschule für Musik Karlsruhe. Também já foi professor na UFRJ, no Badisches Konservatorium e no CEIM- UFF.