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As cordas brasileiras no 39º Festival Internacional de Música de Londrina

Postado em Festivais em 11/07/2019

As cordas brasileiras no 39º Festival Internacional de Música de Londrina - André Siqueira. Créditos: Íris Zanetti

(André Siqueira. Créditos: Íris Zanetti)

Por André Siqueira

A ideia de uma identidade nacional a partir dos instrumentos de cordas dedilhadas me parece fascinante. Violões, viola caipira, bandolim, cavaquinho e guitarra elétrica vieram de outras paragens e se reinventaram tecnicamente a partir de nossa música e de nossas tradições. São revolucionárias as soluções dos músicos brasileiros ao vencerem barreiras das formas tradicionais de execução e alcançarem nuances rítmico-harmônica-tímbricas que nossa música exige.

Atualmente o Brasil tem músicos com uma marca e um nível de execução-criação nesses instrumentos que salta aos olhos (para não falar dos construtores-artesãos). E essa marca está muito bem representada no 39º Festival Internacional de Música de Londrina. Com uma demanda cada vez maior de alunos e público, os cursos, workshops e shows do festival atraem cada vez mais a produção híbrida e entre fronteiras de nossa música, que neste ano terá uma parcela importante das cordas dedilhadas.

As cordas brasileiras no 39º Festival Internacional de Música de Londrina - Camilo Carrara

(Camilo Carrara)

Nesta edição, por exemplo, teremos Camilo Carrara, que ministrará o curso de violão que traz em sua alcunha a essência de nossa música atual: Erudito/Popular. E mais um show memorável com Marco Pereira e Paulo Belinatti tocando seus “Xodós”, além de ministrarem um workshop de arranjo para violões. Dois dos maiores nomes do violão brasileiro, Marco e Bellinati são responsáveis pela criação de um caminho. Ou seja, se hoje fazemos nossa música no violão é porque eles abriram esse espaço.

O Iroko Trio também estará presente com a talentosíssima Elodie Bouny, que coloca seu refinado violão junto ao violino de Carla Rincón e a sanfona de Marcelo Caldi em um espetáculo que promete ser belíssimo. Teremos ainda o violeiro João Paulo Amaral ministrando o curso de viola caipira e o grande talento da guitarra brasileira, Nelson Faria ministrando o curso de guitarra elétrica e prática de MPB.

O grupo Água de Moringa, que há muitos anos é uma grande referência na linguagem do Choro, vem realizar o show de lançamento de seu disco de 30 anos de carreira, trazendo como representantes de nossas amadas cordas: Josimar Carneiro (violão de 7), Luiz Flávio Alcofra (violão de 6), Jayme Vignoli (cavaquinho) e Marcílio Lopes (bandolim), além de Rui Alvim (clarinete) e André Boxexa (percussão).

Na minha opinião, não seria possível (diante do cenário atual de ataque  à cultura em nosso país) ter uma programação mais feliz para os amantes desses maravilhosos instrumentos e da música brasileira. Isso reflete um movimento, relacionado ao violão, no qual temos militado há alguns anos aqui em nossa cidade.

As cordas brasileiras no 39º Festival Internacional de Música de Londrina - Água de Moringa

(Água de Moringa)

O programa radiofônico “Cordas brasileiras”, veiculado entre 2008 e 2010 na rádio da Universidade Estadual de Londrina, trouxe ao público inúmeros trabalhos que por aqui não chegavam pelos meios tradicionais e agora o projeto de extensão, de mesmo nome, me dá muitas alegrias como coordenador, trazendo a possibilidade de expandir o território do violão em nossa terra vermelha, colocando-o em um território híbrido entre diferentes linguagens, abordagens e perspectivas.

Ao convidar nomes como Conrado Paulino, Carlos Walter e mais recentemente, Tabajara Belo para compartilharem sua música, seus conhecimentos e sua trajetória com os alunos do curso de licenciatura em música da UEL, estamos fortalecendo uma cena e apontando possiblidades para os nossos alunos que em muitos casos não tem a possibilidade de um contato presencial com músicos desse métier, por estarmos localizados fora do eixo das grandes capitais.

Eu sempre pensei o instrumento como um meio de chegar às filigranas da Dona Música e tenho visto novos talentos desabrocharem carregando a visão ampla do violão como um importante meio para se expressarem criativamente.

Como disse no início, o violão no Brasil carrega mais que uma técnica, carrega um sentido, um sentimento de nação e um manancial infindável de possiblidades criativas e criadoras.  Além da programação oficial do 39º FIML teremos ainda uma programação paralela ocorrendo no circuito gastronômico da cidade, com destaque para o Brasiliano Bar & Cozinha do chef Marcelo Camargo, também violonista, que tem aberto um importante espaço na cidade para a música instrumental brasileira.

Friso que, além dos nomes citados, existe jovens e talentosos instrumentistas trabalhando para que - através de suas cordas dedilhadas - a música brasileira alcance cada vez mais público em nossa cidade.

Agradeço imensamente ao Alessandro Soares (do Acervo Digital do Violão Brasileiro), pela excelente provocação, e ao luthier Nilson De Mari, que além de apoiar vários desses eventos me apoia com sua arte de luthier.

Viva a música brasileira!