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A história de O Pato e os 60 anos da gravação do LP O Amor, o Sorriso e a Flor, de João Gilberto

Postado em Coluna Conrado Paulino em 12/11/2019

(João Gilberto e Tom Jobim)

Por Conrado Paulino

Em novembro de 1959, há exatos 60 anos, Tom Jobim e João Gilberto passaram 10 dias no Sítio do Poço Fundo, a casa de campo da família Jobim. O lugar fica (apesar de ter sido quase totalmente destruído por uma enxurrada em janeiro de 2011) na cidadezinha de São Jose do Vale do Rio Preto, região serrana do Rio de Janeiro, perto de Teresópolis.

Nesse cenário bucólico e silencioso, os dois gênios da nossa música ficaram ensaiando e decidindo o repertório do então próximo disco. O trabalho maior coube ao mestre soberano, claro, que escreveu durante sua estadia no sitio todos os arranjos das 12 músicas do hoje mítico registro fonográfico.

Ali João mostrou a Jobim o então quase desconhecido samba O Pato, uma canção do fim dos anos 1940, que João trouxe da sua curta passagem pelos Garotos da Lua - por onde ele passou, mas acabou expulso por faltar aos ensaios e atrasar nas apresentações. Curiosamente, apesar de fazer parte do repertório do grupo, a música – composta pela dupla Jayme Silva e Neusa Teixeira - não tinha sido registrada em disco ainda.

Ouça faixas do LP "O Amor, O Sorriso e A Flor"

O escritor e pesquisador Ruy Castro, no livro Chega de Saudade, conta mais detalhes: “O pato era uma relíquia do repertório dos Garotos da Lua desde 1948. Tinha sido levado na Rádio Tupi a Milton, o chefe do conjunto, por um dos autores, um mulato alto, elegante e simpático chamado Jaime Silva (...) Jaime disse que o samba era seu e de sua parceira, Neuza Teixeira, que não estava com ele. Milton ouviu a música e gostou no ato. “O pato” foi incorporado ao repertório dos Garotos da Lua, que a cantaram incontáveis vezes na Tupi e nos seus shows, ainda com Jonas Silva como crooner. Mas nunca a gravaram, nem mesmo em acetato. Quando Jonas teve de sair para a entrada de João Gilberto, a música continuou por algum tempo no book do conjunto e João cantou-a com eles à exaustão, até que a abandonaram"

Apresentado à composição lá no Sitio do Poço Fundo, o mestre Jobim gostou e achou inclusive que seria interessante inclui-la para equilibrar a elegância e sobriedade das outras canções do disco.

Com o repertório definido e os ensaios prontos, as gravações se iniciaram ainda em dezembro daquele ano e avançaram pelo primeiro mês do ano seguinte. 

O disco saiu no começo de 1960 e o desconhecido e despretensioso sambinha O Pato tornou-se um sucesso mundial. 

Porém, abrindo um parêntesis na nossa história, "despretensioso", em termos. À primeira vista, essa canção pode parecer inferior ou banal, descartável. No entanto, João Gilberto sabia porque a estava escolhendo. 

Para entender melhor, vejamos a explicação de Luiz Tatit, professor titular do Departamento de Lingüística da FFLCH da USP : "João Gilberto se caracterizava por priorizar a sonoridade do texto, em detrimento da sua semântica. A ausência de tensões semânticas é percebida na sua escolha de repertório, com canções lírico-amorosas sem tensividade passional, como Chega de Saudade, canções quase infantis, como O Pato e Lobo Bobo, e suas próprias composições, como Bim Bom. João se preocupava de tal forma com os detalhes do texto das canções que cantava, valorizando excessivamente as unidades musicais da canção, que ele mexia, alterava, traduzia idiossincraticamente os detalhes de duração, frequência, intensidade e texto, quando omitia, acrescentava ou mudava trechos ou palavras das canções, mudando o efeito, mas não a essência e a identidade da canção" (Luiz Tatit, "O Cancionista", EDUSP, 2002)

(João Gilberto)

Alias, o professor Tatit diz, no citado livro, uma frase definitiva :  "João Gilberto era um recompositor, um cancionista-intérprete, sendo aquele que não executava o que o compositor criou, mas o que executava o que o compositor deixou de criar" 

Agora sim, voltando ao O Amor, o Sorriso e a Flor, o disco todo foi um enorme sucesso, e o resto é história. Entre outras coisas, ele consagrou definitivamente o João Gilberto como intérprete e violonista, um ano após o enorme destaque conquistado com o seminal  "Chega de Saudade", lançado em março de 1959. 

Consagrou também (ainda mais) o mestre Tom Jobim como compositor (seis das 12 canções do disco são da sua autoria, incluindo os mega-sucessos mundiais Samba de uma nota só e Corcovado) e também como arranjador.

E, como se fosse pouco, o disco deu formato definitivo à estética da Bossa Nova (a mesma estética que dois anos depois seria um furor nos Estados Unidos, a partir do lançamento da edição norte-americana do disco em 1962 e da lendária apresentação dos mestres da Bossa Nova em 21 de novembro desse mesmo ano no Carnegie Hall de New York)

E O Pato? Bom... tornou-se uma das músicas da era da bossa nova mais conhecidas no mundo, junto com Desafinado, Chega de Saudade e outros clássicos. Nada mal para um sambinha despretensioso. 

PS: Todo músico conhece a lenda do gato de João Gilberto, aquele que suicidou-se, atirando-se pela janela do prédio, porque não aguentava mais ouvi-lo ensaiando e repetindo pequenos trechos da mesma música à exaustão. Pois essa música, segundo a lenda, era "O Pato".

PS II: Cabe destacar ainda que o disco traz uma música instrumental, Um abraço no Bonfá, composição de João Gilberto para violão solo (com uma discreta percussão, no disco) digna das peças modernas e brasileiríssimas do mestre Garoto (Aníbal Augusto Sardinha (1915-1955).