Levino-Albano-da-Conceicao

Levino Albano da Conceição

Nascimento

12 de Novembro de 1883

Falecimento

19 de Fevereiro de 1955

Naturalidade

Cuiabá (MT)

Compositor, multi-instrumentista, arranjador e regente, foi professor de Dirlermando Reis e dos mais inspirados criadores de sua geração

Por Jorge Carvalho de Mello

Filho do tenente do Exército Manoel Albano da Conceição, baiano, e de Carlota Maria da Conceição, catarinense, ambos negros, Levino teve quatro irmãos. Aos seis anos de idade, teve cegueira causada pela febre amarela, em Corumbá, Mato Grosso, para onde a família havia se mudado. Essa tragédia foi amenizada pela descoberta dos sons do violão do irmão Faustino – músico do exército, num batalhão militar em Corumbá – que, ao lhe perceber o talento, o presenteou com o instrumento musical no qual Levino descobriria os primeiros acordes e melodias.

Músicos não faltaram na família de Levino. O tio Manoel Florêncio, mestre da arte musical, residente em Corumbá, deu-lhe as primeiras noções de harmonia. Não deu outra: aos 16 anos,  Levino Albano da Conceição já era considerado o melhor violonista de Corumbá. O adolescente, já exímio violonista, tinha ambições: não queria tocar apenas violão. Queria manejar outras cordas, e aprendeu a tocar bandolim, bandurra e cavaquinho.  

Desejava mais: passou das cordas aos instrumentos de sopro, e se tornou também tocador de sax-horne, trombone, bombardino-saxofone, clarinete e pistom – nesse instrumento se tornou expert, a ponto de, se tornar o primeiro pistom da Banda do Maestro Apolinário, entre os 16 e 17 anos. (Conforme depoimento de Levino da Conceição a Almirante, em 1946).

Chegada ao Rio

Em 1 de setembro de1903, Levino chegou ao Rio de Janeiro disposto a aprender a tocar ainda melhor, e, também, a se consultar com médicos especialistas sobre cegueira. Procurou então os doutores Moura Brasil, Fialho, Rego Lopes e Pires Ferreira – e desses especialistas obteve informação de que a cegueira do músico era irreversível.

Por intermédio da família do Marechal Rocha, com quem fez amizade, conheceu Quincas Laranjeiras, de quem se tornou amigo e a quem visitava com frequência numa pensão localizada na Rua do Senado, 5, centro do Rio. Tornou-se aluno exemplar do mestre: bastava que o professor tocasse determinada música apenas uma vez para que o discípulo a reproduzisse na íntegra.

Em 13 de setembro de 1904, Levino Albano da Conceição ingressou no Instituto Benjamin Constant (dedicado ao ensino de deficientes visuais), no Rio.

Concertos

Em 13 de agosto de 1906, Levino e o professor Luiz Margutti organizaram um concerto no Conservatório Livre de Música. Entre as várias atrações estava o duo de violões formado pelo jovem músico de 23 anos e o maestro Ernani Figueiredo – ambos executaram a Ave Maria, de Bach/Gounod, em arranjo de Quincas Laranjeiras, e Tarantella, de autoria do multi-instrumentista mato-grossense. Em duo com Quincas Laranjeiras, Levino apresentou outra composição de autoria dele: Bolero (Gazeta de Noticias, 14/08/1906, página 3).

Outro evento importante ocorrido em 1906 foi o Festival dos Cegos, organizado pelo Instituto Benjamin Constant em 16 de setembro na Praça da República, no centro do Rio. Nessa apresentação, no segundo número, Levino regeu um grupo de amadores com violões e instrumentos congêneres. Exibiu-se também no evento a Estudantina de Bandolins e Violões, dirigida pela professora Maria Amélia de Paiva. Nos violões, entre outros, estavam Quincas Laranjeiras e Ernani Figueiredo (Gazeta de Noticias,  17 de setembro,1ª página).

Causa dos deficientes

Levino permaneceu no Instituto Benjamin Constant até o final de 1906. Já em 24 de fevereiro de 1907, apresentou conferência em Corumbá, no Edifício da Municipalidade, na qual falou sobre a educação dos cegos (O Brazil - Órgão da Coligação Mato-grossense - 26/02/1907). Começava assim trabalho incansável pela causa dos deficientes visuais, missão à qual se dedicou durante toda a vida. Levino muito se empenhou pela criação de novas escolas para deficientes visuais em todo o Brasil.

Ainda em 1907, em 1 de abril, Levino se apresentou na Câmara Municipal de Corumbá, tocando violino, violoncelo e violão (O Brazil - Órgão da Coligação Matogrossense. 02/04/1907, página 2). Em 13 de maio, então em Cuiabá, tcou no Club Internacional, executando o Hino Nacional no violão, e, também, na bandurra, flauta, violoncelo e bandolim (O Pharol - Cuiabá-18/05/1907).

Em Corumbá, Levino continuou desenvolvendo atividades musicais e, durante 1909, dirigiu uma estudantina nessa cidade (Correio do Estado, 24/11/1909). No ano seguinte, ainda em Corumbá, realizou um concerto no salão da Sociedade Italiana, em 30 de setembro.

Paraguai e Uruguai

Levino da Conceição saiu de Corumbá no dia 7 de março de 1913. Destino:  Paraguai e Uruguai, retornando em seguida ao Brasil, pelo Rio Grande do Sul. A viagem até Assunção foi feita pelo Rio Paraguai e, durante o trajeto, o comandante pediu ao músico  que apresentasse um concerto a bordo – o que lhe rendeu 1 conto de réis.

No Paraguai, apresentou concerto no Teatro Nacional em Assunção. Após ficar por 22 dias em solo paraguaio, rumou para o Uruguai. Em Montevidéu, se apresentou no Instituto La Lyra, onde tocou, além do violão, contrabaixo, flauta, bandolim, e bandurra.

Episódio ocorrido na capital uruguaia, lhe foi marcante para a carreira de concertista de violão. “Em 1914, quando eu já dava concertos em Montevidéu, recebi uma lição pelo violonista uruguaio Martin Lborda Pagola. Esse moço muito sincero assistiu ao meu concerto e no dia seguinte foi me visitar. Apesar dos elogios que me fez, aconselhou-me sinceramente a corrigir a posição das mãos esquerda e direita. E agarrando minhas mãos, me ensinou a puxar as cordas... (Depoimento de Levino a Almirante, concedida em 1946, e parcialmente reproduzido no texto do CD Origens do Violão Brasileiro, de Ezequiel Piaz).

Banda municipal gaúcha

Na volta ao Brasil, pelo Rio Grande do Sul, realizou em junho de 1914 concerto no Clube Gaúcho, na cidade de Santo Ângelo. (A Federação. Rio Grande do Sul.16/06/1914). A partir de então faz grande temporada pelo Estado. Estabeleceu-se inicialmente na cidade de Ijuí, onde organizou a Banda Municipal, considerada uma das melhores da região.

Em 13 de dezembro de 1916, realizou audição para a imprensa na redação do Correio do Povo, em Porto Alegre. Nesse concerto apresentou, entre outras, a valsa de concerto de autoria dele dedicada à violinista Olga Fossati: És Imortal.

Confeitaria

No violão, apresentou Capricho Árabe, de Francisco Tárrega e Andante Paterno, de Carlos Garcia Tolsa. Ainda na capital gaúcha e nesse mesmo ano, Levino realizou concerto no salão da Confeitaria Rocco, em 23 de dezembro, onde apresentou, entre outras, Bicho Feio, tango humorístico de Agustin Barrios e Matilde, mazurca romântica de Carlos Garcia Tolsa.

Em 1917 voltou a se apresentar no salão dessa confeitaria em 5 de janeiro – onde tocou violão, violino, flauta e violoncelo – e em 8 de fevereiro, onde executou, entre outras, A Grande Sonata em Sol Maior, de autoria dele; Noturno 2, de Chopin; e Al Fin, Solos, de Carlos Garcia Tolsa. Em fevereiro de 1917, Levino visitou a redação do jornal A Federaçãoera visita de despedida, pois partiria em excursão pelo interior do estado, se apresentando nas cidades de Cachoeira do Sul, Santa Maria e Júlio de Castilhos, dando concertos e lutando em prol da causa dos deficientes visuais.

Porto Alegre e Caxias do Sul

No final de abril de 1918, o jornal A Federação (29/04/1918, página 3), de Porto Alegre, registra o regresso do professor de música Levino Albano da Conceição, após longa e bem-sucedida turnê pelo interior do Estado. Em 18 de maio e 9 de junho desse ano, o músico mato-grossense se apresentou em concerto no Theatro São Pedro, na capital gaúcha. No repertório, os destaques eram as músicas Grande Marcha Militar e o tango É Bom que Dói, ambas de autoria do concertista.

Em 14 de junho, o jornal A Federação anunciou: Levino seguia para Caxias do Sul para realizar série de concertos. O jornal O Brasil, dessa cidade, em edição de 15 de junho noticiou: “O exímio guitarrista Levino Albano da Conceição está entre nós desde ontem”.

O único concerto de Levino Albano da Conceição em Caxias do Sul aconteceu em 25 de junho, no Cinema Pathé, para “uma regular assistência”. Mas antes do concerto, o professor Levino dissertou longamente sobre a educação ministrada aos cegos no Brasil e aludiu aos grandes serviços prestados pelo Instituto Benjamin Constant. (O Brasil, 29/06/1918, página 2).

De volta a Porto Alegre, Levino continuou as atividades artísticas – deu aulas de música e se apresentou como concertista. Em 1919 se apresentou por duas vezes no Theatro São Pedro: em 5 de fevereiro apresentou, entre outras músicas, duas composições de Carlos Garcia Tolsa: Pienso em , grande valsa de concerto, e Al Fin, Solos. De  autoria dele tocou Melopéa dos Sonhos; a valsa lenta Coração de Artista e Polaca Fantástica; além de Minha Mãe, de Agustin Barrios, Noturno 2, de Chopin, e Capricho Árabe, de Tárrega (A Federação, 01/02/1919, página 5).

Já no concerto de 11 de agosto de 1919, Levino contou com a participação dos professores João e José Kurtz, e do discípulo Carlos Lemos. Ao violão, interpretou, de autoria dele, as peças Sublime Resignação e Voir et Aimer, romance dedicado à discípula Paquita Baylina. Com os irmãos Kurtz, executou (ao bandolim) Souvenir Lointein, de J. Burgmein, e com o discípulo Carlos Lemos, em duo de violão, executou Bolero, de J. Veloso, e Souvenir Napolitaine, tarantela de autoria própria (A Federação, 10/08/1919).

Discípulos

Em 15 de agosto de 1920, Levino se apresentou no Clube Caixeiral, também em Porto Alegre. Nesse concerto, contou com a participação de dois discípulos. Em duo com Ildefonso Thielen, apresentou Al Fin, Solos, de Carlos Garcia Tolsa; e com Annita Krake Otton, executou o Capricho Árabe, de Tárrega (A Federação,16/08/1920).

Levino Albano da Conceição ficou no Rio Grande do Sul até 1923 e, nesse período, revela faceta surpreendente: o de compositor de músicas carnavalescas. No dia 9 de fevereiro de 1923, o Bloco dos Fidalgos apresentou novas canções, com destaque para o cateretê Não Grite, Que é Pior, e todas ensaiadas pelo próprio Levino (A Federação. 09/02/1923, página 4).

O violonista partiu do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro ainda em 1923, mas deixou uma herança carnavalesca que foi resgatada pelo cordão carnavalesco Os Batutas, que, num concurso de músicas para o carnaval porto-alegrense de 1925, apresentou diversas composições de Levino Albano da Conceição – com destaque para As Borboletas (A Federação, 25/02/1925, página 2).

Florianópolis

Em 24 de junho de 1923, de passagem por Florianópolis, Santa Catarina, Levino aproveitou a oportunidade de tocar para a imprensa (Republica, Florianópolis, 24/06/1923). Na capital catarinense ocorreram mais dois concertos: no Theatro Álvaro de Carvalho, em 3 e 6 de julho.

Já no Rio de Janeiro, Levino Albano da Conceição realiza, em 29 de setembro de 1923, audição na Associação Brasileira de Imprensa, em homenagem à imprensa carioca (Gazeta de Notícias, 02/10/1923); e no dia 17 de outubro promove concerto no Instituto Nacional de Música (O Jornal, 17/10/1923, página 11), ao lado do poeta Catulo da Paixão Cearense.

Em 3 de fevereiro de 1924, Levino participou de um ato variado, por ocasião da apresentação das peças Revolução Portuguesa e Ceia dos Cardeais, no Teatro República. Teve como companheiro de palco, o discípulo Gustavo Ribeiro, que faria brilhante carreira como violonista (Correio da Manhã - 03 de fevereiro de 1924).

Catulo e João Pernambuco

Em 12 de março de 1925, Levino realizou outro concerto no Instituto Nacional de Música, com a participação de Catulo da Paixão Cearense, que recitou poema inédito, e de João Pernambuco, que formou duo com Levino na execução da tarantela Souvenir Napolitain, uma das mais conhecidas composições do concertista. Destaque para as interpretações de Levino em Rondó Brilhante, de Aguado, e Páginas d’Alma, de Agustin Barrios (O Paiz, 10/03/1925).

Na segunda parte desse evento realizado no Instituto Nacional de Música, Catulo declamou versos, e João Pernambuco e Levino se apresentaram em duo de violão (O Imparcial - 30/04/1925, página 8). A parceria entre Levino, Catulo e João Pernambuco se tornou mais intensa na Tarde Brasileira, evento organizado pelo escritor Coelho Netto no Fluminense F. C em 2 de maio. Em seguida, Levino promoveu outra apresentação no mesmo local, também com a participação do poeta cearense (Jornal do Brasil, 09/05/1925, página 11).

Levino partiu em excursão artística para outros estados: em 10 de junho realizou audição dedicada à imprensa de Juiz de Fora, Minas Gerais, no Hotel Rio de Janeiro, com a promessa de realizar um concerto nesta cidade – o que aconteceu em 17 de junho, no Club Juiz de Fora (O Pharol, Juiz de Fora, MG, 17/06/1925).

São Paulo, Cuiabá, Rio

Em 1 de outubro, na capital paulista, apresentou recital no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, no qual tocou duas músicas de Agustin Barrios, Mi Madre e Página d’Album; além de diversas composições de autoria própria, como És Imortal, Triste Ausência, Quem Resista?, Alma Apaixonada, Coração de Artista e Retomada de Corumbá. (Correio Paulistano, 01/10/1925, página 5). De volta a Mato Grosso, Levino se apresentou por diversas vezes no Excelsior Cine, em Corumbá, na primeira semana de novembro (Correio do Estado. Mato Grosso,12/11/1925,1ª página).

Data de 27 de fevereiro de 1926 o primeiro concerto de Levino em Cuiabá, onde nasceu, após 12 anos de ausência, no Palácio da Instrução (A Razão, 27/02/1926, 1º página, e O Republicano, 25/02/1926, página 3). Em seguida realiza outras apresentações na capital mato-grossense: 1. no Asilo Santa Rita, em 9 de março (A Cruz. Mato Grosso, 14/03/1926, página 3); 2. no Cine Parisiense, no dia 21 (A Capital, 21/03/1926); no Theatro Phenix, em 29 de maio (A Razão, 29/05/1926, página 2).

Na volta ao Rio de Janeiro, participa da apresentação artística das festividades do Centenário do Bispado de Cuiabá, realizadas no Instituto Nacional de Música (O Paiz. 14/07/1926); e em 14 de agosto realiza concerto no Instituto Nacional de Música, contando com a participação da pianista, também cega, Alzira Ferreira. Novidades dessa apresentação: as peças Scherzo, de Henrique Oswald, em adaptação para o violão por Alberto Balthar, e Primavera e Canção Brasileira, ambas compostas pelo maestro Henrique Alves de Mesquita (O Paiz,14/08/1926, página 5).

O que é nosso

No famoso concurso de violão realizado em fevereiro de 1927, patrocinado pelo Correio da Manhã e inserido no movimento O Que é Nosso, inscreveram-se três candidatos: Americo Jacomino (o consagrado Canhoto), Manoelito Lima (violonista cego que veio com o grupo nordestino Turunas da Mauricea), e a menina Yvonne Rebello da Silva, filha do Zé Cavaquinho. Os candidatos tinham que escolher uma peça do repertório erudito, outra do repertório popular, e uma de livre escolha. Como apenas Yvonne tocava peças eruditas, os organizadores resolveram premiar os três inscritos, que tiveram por patronos João Pernambuco, Levino Albano da Conceição e Quincas Laranjeiras, respectivamente.

Ainda em 1927, Levino promoveu um concerto no Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo, em 20 de setembro; e se apresentou no Santos F. C. em Santos, São Paulo, em 11 de outubro (Diario Nacional,12/10/1927, página 5).

Nas excursões que realizava, Levino lutava pela causa dos deficientes visuais se apresentando como concertista e professor de música – o próprio artista, bem-sucedido e excelente instrumentista, era exemplo de superação. No interior de São Paulo promoveu concertos em Piracicaba – 23 de julho, no Teatro Santo Esteban (Correio Paulistano, 01/08/1930), e em Santos – no salão nobre do Santos F. C. no dia 15, e no Politeama, no dia 22 de agosto (Correio Paulistano, 15 e 23/08/1930).

Levino Albano da Conceição retornou à capital paulistana em setembro, onde ofereceu audição dedicada à imprensa, no salão nobre do Correio Paulistano, no dia 18. Em 25 de outubro, realizou concerto no Theatro Sant’Anna, na capital paulistana.

Dilermano Reis

Continuando a excursão artística pelo interior paulista, passou pela cidade de Guaratinguetá, onde foi apresentado, após o concerto que realizou no Cine Central, ao jovem violonista (então com 15 anos), e já considerado como o melhor da cidade, Dilermando Reis (As informações apresentadas a seguir foram baseadas no depoimento que Dilermando Reis concedeu ao Museu da Imagem e do Som-RJ em novembro de 1972, e no livro Dilermando Reis - Sua Majestade, O Violão, autoria de Genésio Nogueira).

No dia seguinte, Levino ouviu Dilermando tocar e, tendo ficado muito impressionado com o talento do jovem violonista, convidou-o a seguir viagem em companhia dele. O músico procurou os pais de Dilermando e pediu permissão para que o rapaz o seguisse  em excursão. Comprometia-se a lhe ensinar música, técnicas de tocar violão, e a encaminhá-lo para a  vida artística, livre de quaisquer despesas.

O pai de Dilermando, um entusiasta da arte do filho, percebeu a grande chance que surgia, e prontamente concordou. Mestre e discípulo se apresentaram juntos por dois anos, e o excelente aprendiz contou: “No começo, eu estudava com o Levino, e ele, nos primeiros recitais, não me apresentava como aluno. Mas logo depois de três meses ele fazia a primeira parte e deixava a segunda para eu fazer.”

Na casa de João Pernambuco

Em 1933, Levino e Dilermando chegaram ao Rio de Janeiro, na Central do Brasil, e partiram de bonde para a Lapa, procurando por João Pernambuco. Fizeram a coisa certa. Amigos que havia muito tempo não se viam, os dois foram muito recebidos e convidados a pernoitarem na casa dele. A conversa se prolongou, sempre regada com muita música, até tarde da noite.  

João Pernambuco os acomodou em pequeno cômodo no qual morava onde haviam apenas duas camas – e Dilermando acabou dormindo no chão. No dia seguinte, após nova rodada de conversa e de música, Levino e Pernambuco saíram para tomar café, deixando Dilermando no quarto.

Ao voltarem, Pernambuco ouviu Dilermando tocar e ficou surpreso e admirado com a habilidade instrumental do desconhecido, pois Levino não lhe contara das qualidades do discípulo. Aconteceu então algo inesperado e até mesmo surpreendente, por partir de uma pessoa tão séria e responsável como Levino Albano da Conceição, que teria dito ao discípulo: “Olha, Dilermando. Eu tenho que ir até Campos e, em seguida, até a Bahia. Depois, mando te buscar”.

Levino deixou pagas quinze diárias do hotel onde estavam hospedados e viajou. Passados os quinze dias e sem sinal algum de o mestre voltar, Dilermando conta como lidou com aquela situação delicada: “Eu, vendo que Levino não voltava, resolvi lutar sozinho com o meu violão”. (Isto teria sido contada pelo próprio Dilermando num programa da Rádio Jornal do Brasil, produzido por Simon Khouri).

Dilermando Reis procurou  João Pernambuco, e lhe explicou o ocorrido. Foi prontamente abrigado até que a situação do rapaz melhorasse. Essa passagem parece um ponto fora da trajetória de Levino Albano da Conceição, sempre disposto a ajudar o próximo. Certamente, houve algum desentendimento entre eles, cujos caminhos jamais se tornariam a cruzar.

Dilermando conseguiu superar as dificuldades inicias e se firmar como um dos maiores violonistas brasileiros de todos os tempos, e, também, como grande professor. Levino da Conceição continuou tocando todos os instrumentos nos quais era mestre e seguindo a missão de melhorar as condições dos deficientes visuais brasileiros.

Últimos passos

Em 12 de dezembro de1934, no Rio de Janeiro, apresenta recital no Instituto Nacional de Música,  onde executou, entre outras peças, o Choro 1, de Villa-Lobos (Jornal do Brasil, 12/12/1934). Em 1935, Levino passa alguns meses em Vitória, Espírito Santo: dias 7 e 13 de fevereiro: recital no salão da Escola Normal Pedro II;  24 de julho: Concerto no Palácio do Governo; 7 de agosto: Concerto no teatro Gloria. (Diário da Manhã)

O multi-instrumentista deixa a capital capixaba em 20 de agosto de 1935, rumando para Belo Horizonte, Minas Gerais. Em seguida continua peregrinação artística Brasil afora até 20 de fevereiro de 1943, quando promove um último concerto – em benefício da Sociedade dos Cegos de Fortaleza.

Em 3 de dezembro de 1945, foi nomeado Professor Catedrático do Instituto Benjamin Constant, do Rio de Janeiro. Em 28 de outubro de 1947, realiza recital, transmitido pela Rádio do Instituto Benjamin Constant. Levino morreu em19 de fevereiro de 1955, em Niterói, Rio de Janeiro.

 

Composições:

Ao Luar

Alma Apaixonada

Andante Expressivo

(As) Borboletas

(A) Carioca

Canção Gaucha

Cateretê Mineiro

Cecy

Cidade Branca

Cinzas

Chorinho

Coração de Artista

Cromo

Estudo em Mi Menor

Estudo Melódico

É Bom que Doi

És Imortal

Grande Sonata, em sol maior

Grande Marcha Militar

Há Quem Resista?

Lembrança

Marciano no Choro

Meditando

Minha Caçula

Não Salta, José

Não Grite, Que é Pior

(El) Pesado (Audacioso)

Polaca Fantástica

Prece da Saudade

Preludio nº 7

Reminiscências Baianas

Rei da Boemia

Saudades do Rio Grande

Símbolo do Bem

Sonho de Amor

Sonatina

Soluçando

Souvenir Napolitaine, tarantela

Sublime Resignação

Transportes D’Alma

Triste Ausência

Voir et Aimer

 

Discografia:

78 RPM

*TRISTE AUSÊNCIA. Mazurka (Levino Albano da Conceição)

Odeon R-122.540(1923)

*A CARIOCA.Polca-tango(Levino Albano da Conceição)

Odeon R-122.541(1923)

 

CD Tributos:

- Leandro Carvalho, Cromo

- Ezequiel Piaz, Origens do Violão Brasileiro