Coluna Alessandro Soares

Canal Brasil exibe série dedicada ao violão 7 cordas

O carioca Carlinhos decidiu ser músico depois que achou um violão velho no lixo. Na adolescência, tocava na Velha Guarda até Beth Carvalho descobri-lo. Já a carreira do recifense Vinícius estava traçada ainda bebê, quando foi apadrinhado por Raphael Rabello. Assim como o goiano Rogério, que começou a tocar aos 6 anos e foi aluno de Alencar. Enquanto o gaúcho Bonilla, amigo de infância de Yamandu, também foi prodígio e seguiu trajetória gloriosa, interrompida em 2015.

Esses e outros grandes nomes do violão 7 cordas, de várias gerações e diversas regiões do país, são perfilados na série de TV Sete Vidas em 7 Cordas, que está sendo exibido no até o final de janeiro no Canal Brasil às quintas-feiras, às 20 horas, com reprises aos domingos (12h30) e terças-feiras (19h). 

Dirigido pelo documentarista Pablo Francischelli, com produção da Doublechapa, a série é dividida em sete episódios de aproximadamente 50 minutos de duração, cada, com curadoria e apresentação de Yamandu Costa. São eles: Herança Russa, Carlinhos 7 Cordas, Rogério Caetano, Arthur Bonilla, Luizinho 7 Cordas, Valter Silva e Vinícius Sarmento.

Estruturado em ótimo roteiro escrito por Pablo junto com Caio Jobim, o filme é um marco por ser a primeira vez que se retrata a trajetória do violão em documentário no país. Independentemente se em cinema ou TV, faltava um título que abordasse o tema. E é sintomático o fato de o personagem principal ser o 7 cordas. Mostra o quanto o interesse pelo instrumento cresce a cada dia e como o violão brasileiro no futuro será influenciado pela sétima corda. 

SETE VIDAS EM 7 CORDAS - Teaser Episódio Piloto from DobleChapa on Vimeo.

De fato, tal novidade se soma a vários acontecimentos da recente história musical brasileira. A começar pelo surgimento de jovens talentos (algumas faixas dessa discografia podem ser ouvidas aqui). Mas também pelos métodos produzidos, os cursos acadêmicos criados, as dissertações de mestrado (ver)  e até partituras, a exemplo das peças editadas pelo Acervo Digital do Violão Brasileiro.

Ou seja, havia muito pouca coisa documental, em livro ou nas universidades sobre o violão 7 cordas até 15 anos atrás, pois o atual movimento ainda estava em estágio embrionário. E uma das maravilhas desta série é levar a história do violão para a TV. Mesmo para os não apaixonados pelo instrumento, os episódios são divertidos, dinâmicos e cativam o público, pelas conversas e curiosidades, os detalhes da fotografia, a riqueza dos encontros musicais e o carisma de Yamandu. 

Em Moscou

O programa de estreia, exibido inicialmente em 17 de dezembro, abordou as origens do 7 cordas na Rússia. O ponto de partida é o pioneirismo de Tute (Artur de Souza Nascimento) e China (Otávio Littleton da Rocha Vianna), considerados os introdutores do violão 7 cordas na música brasileira. Reza a lenda que eles improvisaram uma sétima corda mais grave depois que viram ciganos russos no Rio de Janeiro tocando violão com uma corda a mais.

Mesmo sem comprovação histórica, a lenda marca a evolução do instrumento no país, consolidada por Dino (Horondino José da Silva), que inventou um vocabulário próprio e se tornou o primeiro cânone no tema.

Para tentar descobrir o elo entre o 7 cordas na Rússia e no Brasil, Yamandu desembarca em Moscou, visita o luthier  Vladimir Azhikulov e toca com o duo formado por Vladimir Sumin e Vladimir Markushevich a Polka Sokolova, de autoria Sergei Orekhov, o grande 7 russo, morto em 1998. O brasileiro também conversa com a violonista Anastasia Bardina.

Apesar das diferenças na afinação e na maneira de se fabricar o 7 cordas entre os dois países, as interpretações de Serguei, na visão de Yamandu, transmitem um sentimento que lembra o estilo seresteiro de brasileiros como Dilermando Reis. Anastasia também destaca como determinadas melodias russas têm um certo teor melancólico que nem a música produzida na América Latina.

Arthur Bonilla

Além dos personagens contemporâneos, a série também contempla filmagens inéditas de violonistas fundamentais já falecidos, como Dino e Raphael Rabello. E faz o registro definitivo do genial Arthur Bonilla, cuja carreira estava em plena ascensão.

Segundo Pablo Francischelli, é praticamente o único filme com Bonilla, exceto aparições em programas de TV. Rodado entre Porto Alegre e uma fazenda em Cruz Alta (RS), Yamandu, Bonilla e amigos como Renato Borghetti mostram o violão 7 cordas utilizado na música dos pampas. Arthur Bonilla morreu de acidente de carro cinco meses após as filmagens, em 29 de maio de 2015, aos 34 anos, e não teve tempo de assistir ao material.

Rogério Caetano

Da mesma geração do colega gaúcho, o goiano Rogério Caetano também merece um programa na série. Integrante dos grupos de choro de Brasília, assim como o bandolinista Hamilton de Holanda, Rogério foi aluno do grande professor cearense Alencar 7 Cordas. Em parceria com Marco Pereira, escreveu o método em livro-CD Sete Cordas: técnica e estilo. O virtuosismo dele, tanto como solista quanto como acompanhador, pode ser conferido nos dois discos solo que gravou, além do trabalho em duo com Yamandu e a participação em inúmeros discos.

Atualmente Rogério Caetano faz parte da banda de Zeca Pagodinho, que também participa do programa. Além da Influência de Dino e Raphael Rabello, Rogério também concebe suas improvisações nas baixarias a partir de diversos elementos musicais como o jazz e não apenas o choro. 

Vinícius Sarmento

Também influenciado por Raphael Rabello, o pernambucano Vinícius Sarmento é o mais jovem da série. Filho do violonista Nuca e sobrinho de Bozó (o mais conhecido 7 cordas do Recife), com quem teve aulas, Sarmento tem 23 anos, segue criando sua própria linguagem musical, já dividiu discos com o cantor Geraldo Maia e já tocou com grandes músicos.

Junto à modernidade sonora que cultiva, Vinícius Sarmento também reverencia os grandes pioneiros do violão da sua terra, como João Pernambuco e Canhoto da Paraíba. Atualmente desenvolve um trabalho com o pianista conterrâneo Vitor Araújo e o compositor Tibério azul. Para a filmagem do documentário, Vinícius, Yamandu e amigos se dirigem a um bar do Recife Antigo e conversam assuntos como a linguagem do 7 cordas no Nordeste. 

Luizinho 7 Cordas

Luizinho, Carlinhos e Valter Silva são os personagens da série com mais rodas de choro e samba no portfólio. Ícone da escola paulistana, Luiz Araújo Amorim convive com a música desde pequeno, quando o pai, músico amador, tocava em casa com seu regional Estrela de Ouro. Nascido em Marília mas santista de coração, Luizinho começou tocando cavaquinho aos 6 anos. Um pouco mais velho sentava ao lado do rádio e tirava de ouvido os contrapontos do 7 cordas que ouvia. Eleito pelo próprio Dino como seu sucessor, Luizinho toca com os jovens chorões da atualidade em São Paulo. 

Já Carlos Eduardo Moraes dos Santos, o Carlinhos 7 Cordas, foi criado em Vila Isabel, no Rio, e ainda jovem chamou atenção de Beth Carvalho. Depois de Dino, a cantora afirma nunca ter visto alguém com tanta habilidade, “cheio de ginga e carregado de negritude”, como ela define. As cenas gravadas no Mercado do Peixe, em Niterói, também rendem momentos preciosos do documentário, na conversa entre Carlinhos e Yamandu. 

Valter Silva

O mais velho personagem da série, Valter de Paula e Silva também nasceu em família musical. Chegou a tocar em programas de rádio. Depois criou com o irmão gêmeo Valdir o grupo Chapéu de Palha, apresentou-se no Sovaco de Cobra, o lendário bar dos anos 1970, que funcionava no bairro da Penha. De acordo com Rogério Caetano, Valter e Valdir incorporaram ao 7 cordas elementos técnicos da guitarra elétrica, como as escalas pentatônicas.

Na discografia de Valter Silva, constam discos do grupo Fundo de Quintal, Zé da Velha e Silvério Ponte e o belo CD em duo com Yamandu Costa, lançado em 2010. A ideia inicial deste documentário se origina exatamente deste disco. O episódio dedicado a Valter tem cenas de shows com Yamandu, além de sequências filmadas em uma garagem improvisada em São João do Meriti, onde o violonista mora. 

Pablo Francischelli

O diretor Pablo Francischelli lembra que, conversando numa mesa de bar com Yamandu na época da gravação do CD com Valter Silva, falou da curiosidade a respeito do 7 cordas. “Com uma simples corda a mais se amplia o universo rítmico, melódico e harmônico do instrumento. Fui trocando ideia com Yamandu e logo nasceu o nome do projeto. Então sugeri aproveitar a gravação do disco com Valter para fazer o piloto. A partir daí encontramos o formato”, recorda.

Em 2012, o projeto ganhou menção num festival de Montevidéu, ainda só com o episódio do Valter. O restante do documentário foi filmado já em 2014. Em novembro de 2015, Sete Vidas em 7 Cordas recebeu prêmio de melhor roteiro no Telas (Festival Internacional de Televisão de São Paulo). No mesmo festival, a série também ficou entre as três finalistas nas categorias Melhor Série e Realização Artística.

Serviço:

Série SETE VIDAS EM 7 CORDAS

Emissora: Canal Brasil

Programas inéditos: quintas-feiras às 20 horas

Horários alternativos: domingo às 12h30 e terças às 19h 

Período: 17 de dezembro de 2015 a 28 de janeiro de 2016

 

Datas de estreia dos episódios:

Herança Russa (17/12/2015)

Carlinhos 7 Cordas (24/12/2015)

Rogério Caetano (31/12/2015)

Luizinho 7 Cordas (07/01/2015)

Arthur Bonilla (14/01/2015)

Valter Silva (21/01/2015)

Vinícius Sarmento (28/01/2015)

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