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Encontro de violão em São Paulo marca centenário de Abel Carlevaro

Abel Carlevaro

A importância do professor e compositor uruguaio Abel Carlevaro (2016 -2001) para o violão brasileiro pode ser medida pela grande quantidade de discípulos que formou no país entre os anos 1970 e a década de 1990. Esses pupilos, por sua vez, passaram a ensinar cursos de violão nas principais universidades, de Norte a Sul do país. Para marcar o centenário do mestre, que nasceu em 16 de dezembro, o violonista Edelton Gloeden, da Universidade São Paulo (USP), vai coordenar neste sábado (3), das 14h às 20h30, uma série de oito recitais, duas mesas redondas e várias palestras e apresentações dedicadas a Carlevaro.

As atividades ocorrem no Auditório Olivier Toni do Departamento de Música da ECA/USP. Quem assistir aos recitais vai conferir a primeira audição integral da obra para violão solo de Abel Carlevaro. Na abertura do encontro, Edelton Gloeden interpretará as peças Affetuoso e senza rigore, Estudio HVL nº. 3 (bicordes) e os quatro movimentos da Milonga Suite I. Em seguida, será realizada uma mesa redonda  composta pelos professores Luciano César Morais (UNESP), Celso Delneri (ECA/USP) e Edelton Gloeden (USP), mediados por Leandro Quintério (USP).

Na sequencia dessa maratona Carlevaro, Alex Amaral abre o segundo recital do evento, no qual interpretará os Estudios Preliminares 1 a 7, os 4 Estudios (extraídos de Modern Times de Robert Brigtmore) e Milonga para Ling. No mesmo recital, Lucas Vieira toca Canción e Tres faciles, escrita por Eduardo Fernández, uruguaio também é discípulo do mestre.  E Guilherme Moreno encerra este segundo recital tocando de Abel Carlevaro a Suite de Antiguas Danzas, sobre textos e temas de Gaspar Sanz, formada por seis peças.

Cronomias e Microestudos

Antes de realizar o terceiro recital do evento, Gustavo Souza analisa a obra Cronomias, composta por Carlevaro em 1971, e depois toca os três movimentos da sonata. Já Marcelo Fernandes (da UFMS), dará palestra sobre os Microestudios de Carlevaro, seguido pela interpretação dessa obra por Alex Amaral, Lucas Vieira e o próprio Marcelo Fernandes, que neste quarto recital da mostra também vai apresentar estudos e prelúdios de Villa-Lobos e o Ponteio, de Camargo Guarnieri. Vale lembrar que Abel Carlevaro conheceu pessoalmente Villa-Lobos e foi dos primeiros no mundo a interpretar a obra do nosso maior compositor. Guarnieri, por sua vez, dedicou Ponteio ao uruguaio.

E haja fôlego para acompanhar a programação. Guilherme Moreno vai falar dos Aspectos técnicos presentes no Allegro da Sonata Op.15 de Mauro Giuliani e no seu Studio per La Chitarra Op.1. No quinto recital do evento, quatro violonistas graduandos da USP interpretam os cinco movimentos que formam os Preludios Americanos de Carlevaro. São eles: Vinícius Faina Alves, Pedro Mendonça, Igor Aguiar e Pedro Yugo.

América invertida

Celso Delneri dará a palestra O violão na América Invertida: Tradição e influências na música de Abel Carlevaro e fará a primeira parte do sexto recital, tocando Estudio HVL nº. 2, (Movimento transversal) e Introdución y Capricho. O violonista Helder Veiga assumirá a segunda parte, interpretando Milonga Oriental, Aires de Vidalita sobre un tema de Cotelo e Ráfaga, esta última de Turina.

Perto do fim do evento, Cauã Canilha vai falar sobre o tema Estudo de Pivots de Mão Esquerda sobre a Suite Milonga II, de Abel Carlevaro e dará o sétimo recital, com Milonga Suite II (Carlevaro), El Poncho (Fabini) e Variazione traverso i seculi (Tedesco)

Leandro Quintério  vai analisar a série Guitar Masterclass de Abel Carlevaro como referência para estratégias de estudo. E se apresenta no oitavo e último recital, junto com Juliana Vasques. Eles vão interpretar Aires de Malambo,  Milonga Tangueada, Estudo nº. 1: Hommage a Heitor Villa-Lobos e os três movimentos de Arenguay. O encerramento do encontro será com mesa redonda composta por Marcelo Fernandes (UFMS), Paulo Porto Alegre (EMM/EMESP), Giacomo Bartoloni (UNESP/FITO) e Celso Delneri (mediador).

Edelton Gloeden

Legado

Para Edelton Gloeden, ainda é relativamente pequeno o número de pessoas que têm a real dimensão sobre a importância de Abel Carlevaro para o violão brasileiro. “Tive o privilégio de trabalhar com ele. Primeiro em 1974 durante o seminário de Porto alegre, que tinha duração de um mês. Depois em São Paulo. Ele ficava em períodos de uma semana. Isso começou nos anos 1970, mas seguiu com regularidade até o final dos anos 1990”, recorda.

Edelton cita os brasileiros que trabalharam com o mestre uruguaio, ressaltando que muitos deles atuaram e atuam em universidades federais e estaduais do brasil. A lista vai desde o Centro-Oeste, com Eustaquio Grilo (professor na UNB) e Marcelo Fernandes (UFMT), passando pelo Nordeste, com Fidja Siqueira (UFRN) e Cristina Toruinho (UFBA), o Sul, como Daniel Wolff. Em Minas, tem Eduardo Campolina (UFMG) e José Luciana Vaz.

“Em São Paulo tem um monte de gente: eu e meu irmão Everton Gloeden, Henrique Pinto, Paulo Porto Alegre. Eles foram não somente alunos informais dos seminários. Todos, de certa maneira, trabalham os conceitos do Carlevaro. Trata-se de uma figura muito importante para a academia do violão no Brasil e isso passa meio desapercebido”, ressalta.

Outra questão pouco divulgada, na opinião de Edelton Gloeden, é que Abel Carlevaro teve muito contato com Villa-Lobos e foi dos primeiros a gravar seus estudos. Depois Carlevaro conheceu Camargo Guarnieri, que dedicou a ele o Ponteio. “Esta foi a primeira obra que Guarnieri compôs para violão. E o Carlevaro a gravou. Ponteio, na verdade, é a primeira obra de um grande compositor brasileiro que não é violonista.

Abel Carlevaro e Paulo Porto Alegre

Formação técnica

Outro grande violonista brasileiro que se considera muito discípulo de Abel Carlevaro é Paulo Porto Alegre. “Ele foi um grande mestre para todo mundo. Viajava por diversos países dando cursos. Em 1976, Henrique Pinto organizou o Concurso Abel Carlevaro. E tive a sorte de ganhar o concurso. A gente convidou Carlevaro e ele deu uma semana de curso para nós no Conservatório Brooklin Paulista. E a gente fazia o curso de técnica e interpretação violonística. Foi fantástico. Carlevaro foi de uma generosidade impressionate.”

Segundo Paulo, com certeza Abel Carlevaro exerceu influencia total na formação técnica dos brasileiros que estudaram com ele. “Todos nós estudamos profundamente os cadernos de técnica dele. E pensamos e discutimos muito aqueles conhecimentos. Me considero um discípulo do Carlevaro”.

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