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Entrevista com Jean Charnaux

Postado em Coluna Jorge Carvalho de Mello em 08/12/2014

Impossível não se emocionar com Matrizes, primeiro CD do jovem e brilhante violonista e compositor Jean Charnaux, lançado em setembro deste ano, e que pode ser ouvido na discografia aqui do Acervo. As faixas evidenciam execução límpida, emocionada e madura de um intérprete com domínio técnico e plena consciência do discurso musical que apresenta, em composições autorais de imensa densidade. O título do disco faz menção às suas maiores influências: Guinga, Hélio Delmiro e Marcus Tardelli.

O primeiro recebeu como homenagem a belíssima Guinguiana, na qual Jean exibe profundo conhecimento da obra deste grande compositor e violonista carioca. A segunda homenagem, Choro pro Hélio, é um presente de luxo do seu melhor aluno. Se nos caminhos harmônicos percorridos por Jean encontramos fortes pistas da influência de Guinga e Hélio Delmiro, podemos afirmar que o dedo de Marcus Tardelli está nos arranjos, como que apontando as melhores opções.

Preludio em Mi Maior,Soturna, Estudo em Mi Maior e Valsa em Dó Sustenido Maior são peças que formam um caldeirão de influências: Fauré, Debussy e muito de Villa-Lobos. Jean parece entender profundamente a rica floresta de sons brasileiros de Villa.

Nos temas Insone, Trem pelo Brasil e Voador, percebe-se ligeiramente o talento de Jean como improvisador, outra de suas grandes virtudes, ao lado do baterista Jurim Moreira e dos contrabaixistas André Vasconcellos e Pablo Arruda.

Valsa em Dó Sustenido Menor é um tributo ao genial Andrés Segovia. Já Choro Nervoso mostra a “pegada” rítmica de Baden Powell, outra de suas influências. Jean, contudo, tem assinatura bem definida de composição, melodias fluentes, harmonias complexas, aliando de maneira notável simplicidade e sofisticação.

O CD foi produzido por Carlos Gomide, médico, violonista e entusiasta de nossa música. Por meio de um dos memoráveis saraus que promoveu, conheci este artista raro. Como veremos nesta entrevista realizada em 28 de outubro, Jean percorreu longo caminho até chegar ao resultado do disco de estreia.

Com que idade você começou a tocar violão?

Aos 10 anos de idade. E muito por conta da minha avó materna, Luiza Miranda Gomes. Desde quando eu era bem pequeno ela colocava música pra eu ouvir. Eu já batucava, tinha musicalidade. Mas ela queria que isso se materializasse e tinha vários violões em casa. Então eu sempre fiquei vendo os violões dela e, por isso, era um instrumento de fácil acesso.

O que despertou esse interesse?

Foi quando ouvi meu primeiro professor de violão, Duda Anisio (Do Centro Musical Antonio Adolfo) tocando chorinho e umas coisas assim mais clássicas. Aquilo ali entrou na minha alma imediatamente.Ele tocava coisas do Villa-Lobos, Baden Powell, João Pernambuco, Dilermando Reis e chegou a tocar umas coisas do Guinga. Eu quis me envolver naquele universo imediatamente.

Quais foram seus professores?

Tive bastante tempo de aula com o Duda Anisio, desde os 10 anos. Depois tive aulas de guitarra com Nelson Faria, mas a música começou a se tornar algo sério quando comecei a ter aulas com Hélio Delmiro. Fiquei um tempo com o Hélio e depois tive umas aulas com Guinga e hoje em dia tenho aulas com o Tardelli. Mas os principais professores, aqueles que mais me motivaram, foram Guinga, Hélio e Tardelli. Eles são as matrizes que homenageio no meu CD.

Você cursou bacharelado de música na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem até um vídeo no youtube sobre o seu recital de formatura, em 2011, interpretando o Concerto para Violão e Orquestra, de Villa-Lobos, em versão reduzida para violão e piano, ao lado do pianista Flávio Augusto.

Sim. Entrei na UFRJ em 2008 e me formei em 2011. Foi muito bom para a minha formação, como músico. Aprendi muito, principalmente em relação a música clássica.

Além da sólida formação clássica, você improvisa muito bem. Isso é evidente, por exemplo, em outro vídeo do You Tube, ao lado de Guinga, em Choro pro Zé, no Clube do Choro de Brasilia. Você fez outros cursos?

Antes do bacharelado, quando eu tinha 18 anos, cursei guitarra na Los Angeles Music Academy, por seis meses, onde estudei as matrizes do jazz e um pouco do blues. O jazz me deixou fascinado na época. Aprendi as escalas, a parte teórica, improvisação, etc. Isso foi anterior ao Hélio Delmiro e me deu uma base muito boa. Além disso, fiz um curso de violão em Brasilia com o Lula Galvão e Marcus Tardelli. Isso me deixou mais próximo do universo do Tardelli e me motivou a ter aulas com ele mais tarde.

Quais os violonistas que mais te impressionaram?

Justamente minhas matrizes: Guinga, Helio Delmiro e Marcus Tardelli. Os três têm importância no que faço em música e na vida, nas minhas relações, no ambiente em que eu vivo. O aprendizado é eterno. Fora aqueles que já se foram e muito me inspiraram, como Andrés Segóvia e Baden Powell.

Quais os compositores que mais te influenciaram?

Guinga e Hélio Delmiro, principalmente. Por meio do Guinga, tive mais contato com a obra de Villa-Lobos, que me influenciou muito. Além da música clássica, com Gabriel Fauré, Debussy, Ravel, Beethoven, Bach, Mozart...No violão, principalmente Villa-Lobos, Agustin Barrios, Baden e Segovia.

Como é o seu processo de criação?

Todo dia eu pratico um pouco. É uma atividade diária, como um treino. Tem dias em que estou mais inspirado, mais conectado, e as coisas vêm. Gosto muito de dedicar uma parte do dia para compor, mas não é algo assim: “agora eu vou compor”. É uma paixão, algo que está sempre me acompanhando. Eu tenho momentos de inspiração mesmo, em que eu consigo criar. Momentos em que estou mais conectado com o que eu estou sentindo e é muito bom porque consigo expressar isso em forma de música. Isso é uma dádiva. A minha inspiração é entrar em contato com as pessoas através da música. A felicidade de exercer meu papel como artista, compartilhando aquilo que sinto, aproxima-me da plenitude pessoal e profissional.

Como surgiu a ideia deste CD?

Surgiu justamente do desejo de registrar várias músicas que eu já tinha tocado há muito tempo, tanto na formação de trio como, mais recentemente, em violão solo, que foi uma ideia do Tardelli, a de incrementar essa minha parte do violão solo. Muitas pessoas também me pediam que gravasse minhas composições.

E os próximos planos?

Quero compor todos os dias. Continuar o que venho fazendo, estudar, me aperfeiçoar cada vez mais, evoluir. Pretendo levar esse primeiro CD para salas e auditório no exterior. Gostaria muito de poder tocar lá fora. No meu segundo disco, que ainda vou gravar, penso em utilizar outras formações, além do violão solo. Penso em colocar cordas. Vendo compondo muito e tenho muito material para trabalhar.