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Alma de Django Reinhardt norteia festival de jazz em Piracicaba

O recente fervor na cena jazzística nacional em torno do estilo criado pelo virtuoso Django Reinhardt nos anos 1930 tomou conta de Piracicaba, em São Paulo, de forma permanente, com o Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, cuja 4° edição será realizada neste sábado (22), às 19h, no Teatro Erotides de Campos. Entre as atrações internacionais, estão o violonista norueguês Jon Larsen, o grupo canadense Tcha-Badjo e as cantoras holandesas Eva Scholten e Irene Ypenburg.

Já entre os músicos brasileiros que irão se apresentar estão o contrabaixista Seo Manouche, os violonistas Bina Coquet, Fernando Seifarth e Mauro Albert, o arcodeonista Marcelo Cigano e o grupo Hot Club de Piracicaba. O evento conta com Fernando Seifarth como diretor e idealizador e com Daniela Justi como produtora executiva.

Quando há cinco anos, se comemorou por todo mundo o centenário de nascimento do gênio cigano, somente Piracicaba realizou um evento similar no Brasil 100 anos de Django Reinhardt, no Teatro Dr. Losso Neto. Na ocasião, encontraram-­se pela primeira vez praticantes desse estilo particular de swing para celebrar a música do mestre com concertos e jams – este foi o embrião de um movimento que tem dado passos gigantescos a cada ano, com o surgimento de novos grupos praticantes do estilo em todo país e a realização de festivais dedicados ao gênero.

O Festival de Jazz Manouche de Piracicaba teve sua primeira edição em 2013 e foi concebido pelo juiz de direito José Fernando Seifarth de Freitas, um apaixonado pelo jazz cigano e que abraça a música como hobby. A cidade foi batizada pela revista guitar player, em artigo publicado no ano passado, como a capital do jazz manouche no Brasil.

O festival se alastrou para Campinas e chegou à capital paulista a partir de 2014, quando o Bourbon Street Music Club sediou a primeira edição paulistana do festival. Até então,  podia-­‐se  dizer  que  havia  poucos  grupos  ativos  dedicados  ao  estilo  do  jazz manouche no nosso país. De lá pra cá, já há pelo menos mais de uma dúzia de diferentes formações associadas a essa linguagem musical tão característica, contagiando a cena musical com a batida dançante e nostálgica dos violões ciganos acompanhados pela marcação do contrabaixo e pelos improvisos energéticos do violino e do acordeon.

Assista ao documentário sobre o 3 ̊ Festival de Jazz Manouche:

Origem

O estilo jazz manouche surgiu em Paris no começo do século passado, quando o cigano Django e o violinista francês Stéphane Grappelli se juntaram no quinteto do Hot Club de France, consagrando uma parceria que se tornou icônica e definidora de uma nova linguagem no mundo do jazz. Na contramão das instrumentações tradicionais americanas que usavam metais e bateria, o jazz manouche se caracterizou sobretudo pelo uso de instrumentos de cordas como o violão e o violino que já faziam parte da cultura musical cigana, assim como outros instrumentos como o acordeon, justamente por sua portabilidade, adequada ao espírito nômade de sua origem. Da junção do swing americano e a improvisação jazzística com o fraseado cigano e sua verve virtuosística, nasceu o jazz manouche – o gypsy jazz – estilo que conta hoje com grupos praticantes em todas as partes do mundo, quase sempre nomeados como ‘Hot Clubs’ em referência à formação original francesa.

O movimento no Brasil logo começou a chamar a atenção também no exterior, e na 2a. edição do Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, realizada em 2014, houve a  presença de artistas de primeiro escalão internacional no gênero, como Richard Smith (Reino Unido) e Dario Napoli (Itália), estabelecendo parcerias e intercâmbios com os expoentes nacionais do estilo. Em 2015, participaram Robin Nolan (Holanda), um dos maiores nomes do jazz manouche mundiais, e Paul Mehling (EUA), líder do “Hot Club of San Francisco”, considerado o patrono do gypsy jazz nos EUA, tendo sido o primeiro americano  convidado  a  participar  do  célebre  Festival  Django  de  Samois-sur-Seine,  a meca mundial do estilo.

Confira as principais atrações:

JON LARSEN - Nasceu em 7 de janeiro de 1959 na Noruega. Violonista autodidata, compositor, pintor surrealista e produtor musical com enorme influência no renascimento do Gypsy Jazz pelo mundo. Fundador do Hot Club de Norvège (1979), do Django Festival na Noruega (1980), da gravadora Hot Club Records (1982), do projeto Symphonic Django (2005), da Zonic Entertainment (2007), da Den Gyldne Banan ("The Golden Banana", art book publishing company) (2009), e do Project Stardust (micrometeoritos), em 2010. Em 2007, recebeu o  Buddy Award  por sua longa contribuição ao jazz. Iniciou-se como pintor e guitarrista, inspirado por  Salvador Dalí, Django Reinhardt and Frank Zappa. Mais tarde, passou às composições, e criou numerosos projetos com grupos de jazz cigano e de música erudita, como quartetos de cordas, orquestras de câmara e orquestras sinfônicas. Produziu mais de 350 discos de jazz para a Hot Club Records, incluindo CDs com Chet Baker, Stephane Grappelli, Warne Marsh, Nappy Brown, Philip Catherine, a maioria dos principais músicos de jazz cigano, como Biréli Lagrène, Jimmy Rosenberg, Andreas  Öberg, Angelo Debarre, Florin Nicolescu, Babik Reinhardt, Stochelo Rosenberg, and Adrien Moignard. Também trabalha como produtor do selo Zonic Entertainment, exclusivamente dedicado à música inspirada em Zappa.

TCHA-BADJO - Ativo  de  Montreal  (Canadá),  Tcha-Badjo  é  um  grupo  de  jazz  cigano  fundado  em  2012 pelos violonistas virtuosos Charles Fréchette e Damien Levasseur. Acompanhado do cantor  Jean  Russell  (França),  Tcha-Badjo  já  fez  mais  de  400  concertos  em  35  países diferentes. Em todos lugares onde o grupo se apresentou, das montanhas da Turquia até as tribos de  quíchua  da  América  Latina,  Tcha-Badjo  não  deixou  ninguém  indiferente.  O  seu espetáculo é igual à sua vida nômade, e mistura a música de Django Reinhardt com canções e ritmos de vários países como os Estados Unidos, França, Itália, México, Romênia, Rússia, etc. Com  harmonias  vocais  magníficas,  instrumentistas  de    grande  virtuosismo e  uma direção excepcional, o seu espetáculo faz a audiência viajar pelos 4 cantos do globo. (www.tchabadjo.com)

EVA SCHOLTEN - A talentosa cantora de jazz Eva Scholten completou seus estudos no departamento de Jazz do Conservatório de Amsterdam em 2010. Com seu “timing” fenomenal e improvisos na tradição de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughn, ela fornece seu próprio contraponto aos músicos ao seu redor. Como cantora e arranjadora do grupo vocal “YesSister, JazzSister” que acaba de lançar seu segundo álbum “Crazy People”, ela tem participado de todos os festivais de jazz na Holanda. Seu projeto de jazz cigano “Eva sur Seine”, formado por ela e o trio Thomas Baggerman, já apresentou nos principais festivais de jazz manouche da Europa: Django Reinhardt Memorial Festival Augsburg (DE), Django em Liberchies (BE), Django Reinhardt Festival Samois (FR). Com o lançamento do seu segundo EP, “Singin’ Django”, que incluem novos arranjos das composições de Django Reinhardt e letras próprias, foram oficialmente convidados para tocar no palco principal do Django Reinhardt Festival em Samois sur Seine 2016. Sua mais recente e promissora empreitada é uma colaboração com a banda norueguesa Jazzbanditt, que a convidou para cantar no Django Festivalen Oslo em 2015. Tamanho foi o sucesso que eles imediatamente decidiram gravar seu primeiro álbum, que será lançado este ano.

IRENE YPENBURG - Figura emblemática no cenário europeu do gypsy jazz, Irene cresceu em uma família musical e aprendeu a tocar piano e guitarra com os pais. Dançar, cantar e fazer música sempre foi parte de sua vida. Há alguns anos, passou a se dedicar ao “gypsy jazz”, gênero musical do qual se apaixonou. Em  Amsterdam,  apresenta­‐se  regularmente  com  diversos  músicos  e  organiza  eventos relacionados ao jazz cigano. No cenário internacional, já tocou com excelentes músicos na China, Estados Unidos, Inglaterra, França, País de Gales e Nepal, dentre outros. Participa frequentemente dos Festivais de Samois e em Sameraou, onde toca com diversos músicos ciganos. Em janeiro de 2016 organizou as jams sessions do Festival Django Amsterdam e é responsável por uma coluna na revista Gypsy Jazz Secrets de Robin Nolan.

SEO MANOUCHE - O contrabaixista Gilberto de Syllos lançou no final de 2015 o primeiro videoclipe manouche no Brasil, intitulado Já que tá que fique. O sucesso desse projeto motivou o lançamento do seu primeiro CD cantado que leva o mesmo nome. Desde 2014 passa a responder sob a alcunha de Seo Manouche, e tem realizado inúmeros concertos divulgando o novo trabalho, incluindo participações televisivas para os programas Globo Esporte (TV Globo) e  Domingo Espetacular (TV Record). Com um repertório alegre e variado, o público se surpreende durante os shows com o ritmo vibrante e dançante do Seo Manouche, além da virtuosidade e grande senso de humor em interpretações de clássicos da música brasileira, americana, francesa, e composições de sua autoria. Participou das edições anteriores do Festival de Piracicaba acompanhando os artistas nacionais e internacionais. Gilberto além de membro-­fundador do Hot Jazz Club, grupo pioneiro no país no estilo jazz manouche, é um importante nome do seu instrumento no cenário nacional, realizando diversas gravações e participações em shows do gênero por todo o Brasil. Com mais de 30 anos de carreira profissional como contrabaixista e professor de  música, Gilberto de Syllos é mestrando em música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor da Faculdade Berklee Souza Lima, em São Paulo.

FERNANDO SEIFARTH (violão cigano): Iniciou-se  no  violão  aos  7  anos  de  idade,  no conservatório musical Frutuoso Viana, em São Paulo; estudou violão erudito por 4 anos, passando depois para o violão popular, guitarra elétrica e contrabaixo. Integrou o conjunto Bombom em 1983 e 1984 (com o hit “Vamos a La Playa”). Após formar-­‐se na Faculdade de Direito, iniciou, paralelamente à sua atividade profissional, o estudo autodidata da guitarra country (western swing) e do bluegrass. Sob a influência dos amigos Cidão e Monaco, passou a se interessar pelo traditional jazz e a estudar o jazz manouche. Integra, ainda, o conjunto musical piracicabano “Falando da Vida”, e as bandas Hot Jazz Club e Hot Club de Piracicaba, de que é fundador. Ambos os grupos tiveram seus trabalhos de gravação lançados pela Hot Club Records, gravadora norueguesa de Jon Larsen (líder do Hot Club da Noruega). Participou do CD de 45 anos da Traditional Jazz Band. Em 2015, lançou seu trabalho solo, “The Nashville Sessions”, que foi gravado nos EUA com o Hot Club de Nashville. Organizador do Festival de Jazz Manouche no Brasil, que estará na 4a edição neste ano de 2016.

BINA COQUET (violão cigano): Bina Coquet é Vinicio Dutra Coquet, nascido em 11 de Janeiro de 1973 na cidade do Rio de Janeiro, no mesmo ano seus pais mudam-­‐se para São Paulo, onde ganhou o apelido de Bina e aos 10 anos sua primeira guitarra, teve inúmeras bandas profissionalizando-­‐se em seguida. Seu primeiro registro fonográfico foi o Som da Demo pelo Sesc (1995), como Vinicio Bina Quinteto. Conheceu o pianista e organista Ehud Asherie, durante sua estadia na cidade de Nova York, onde mantém um trabalho até hoje, lançando 2 CDs denominado Bina & Ehud -­‐ Samba de Gringo(2005) e Samba de Gringo 2 (2007). Fundou o projeto "Hammond Grooves", ao lado de Daniel Latorre. Participou da Orquestra Saga, também registrado pelo Sesc, Em 2010, pela quarta vez, vai morar em New York decidido a tocar música brasileira no violão manouche instrumento no qual se dedica até hoje. Foi o criador do projeto 'Batuque Manouche" retornando ao Brasil em 2011 e logo começou a se destacar na fusão de  Jazz Manouche com música brasileira. É considerado uma das maiores expressões do violão manouche brasileiro, tendo participado de festivais do gênero e diversas trilhas de campanhas publicitárias televisivas. Desenvolve outros projetos de gypsy jazz, como Catimba Manouche, Seo Manouche e Sampa Hot Club. Bina já trabalhou com Seu Jorge, Wilson Das Neves, Céu, Dona Inah, Trio Mocotó, Robin Nolan, Howard Alden, Richard Smith, Paul Mehling, Choro Ensemble, Anat Cohen, entre outros artistas. Recentemente participou de uma faixa manouche no último CD de Zeca Baleiro.

MARCELO CIGANO (acordeon): Autodidata, iniciou seus estudos no acordeon a partir dos oito anos de idade e desde então se dedica à música instrumental, destacando-­‐se em apresentações e concursos diversos, como em 2008 no “2º CONCURSO INTERNACIONAL DE ACORDEON”, e em 2010 no “FESTIVAL ROLAND DE ACORDEON”, nos quais foipremiado com o primeiro lugar. No seu último CD, “Influência do Jazz”, mostra sua versatilidade como instrumentista, interpretando um repertório diversificado que incluem forró, choro, bossa, valsa, baião, música cigana entre outros, contando com a participação de destacados nomes da música instrumental brasileira, como Oliver Pellet (guitarra e direção), Thiago Espírito Santo e Flávio Lira (contrabaixos), Graciliano Zambonin e Fernando Rivaben (baterias) além das participações de Hermeto Pascoal, Léa Freire, Toninho Ferragutti, Daniel Migliavacca, Davi Sartori, Diogo Dal Nero e Vinicius Araújo. Tem se apresentado no cenário do Jazz Manouche com o Jazz Cigano Quinteto.

MAURO ALBERT (violão cigano): Músico, compositor e professor, Mauro Albert passou a infância na cidade de São Paulo onde aprendeu os primeiros acordes de violão aos 9 anos de idade com o irmão mais velho. Mais tarde aos 11 anos, começou a tocar  guitarra e, em 1990, estudou com Edu Ardanuy. Nesta mesma época, apesar da idade, começou a tocar em bares e casas noturnas da cidade de São Paulo e em Florianópolis. Lecionou em escolas e conservatórios de São Paulo. Em 1995, viajou para o Japão onde tocou por 3 meses com a banda Cristal Waters em diversas casas do pais. Retornou ao Brasil, e em 1998, lançou o primeiro trabalho solo: “Inside”, um disco instrumental com diversas influências como rock, jazz e world music. Tocou em várias cidades brasileiras e numa dessas viagens, descobriu e se apaixonou pela viola caipira. Nos últimos anos tem se dedicado à pesquisa e estudo da música de Django Reinhardt e da cultura cigana manouche. Formou o grupo Poucas e Boas, interpretando temas de Reinhardt e clássicos do gênero. Em 2011 conheceu o violonista francês Louis Plessier, com quem desenvolveu o trabalho de duo “Droms Manouche” com composições próprias lançado em 2012 e apresentado no circuito SESC do interior de São Paulo. Em 2012 lançou o CD autoral "Jazz Manouche Brasil" apresentando uma mistura de jazz manouche com música brasileira e latino americana. Participou das edições anteriores do Festival de Piracicaba.

HOT CLUB DE PIRACICABA: Fernando Seifarth, Marcos Monaco e Cidão Lima (estes dois, clarinetista e baterista da Traditional Jazz Band), fundaram, em 2008, o Hot Club de Piracicaba. Embora tenham outras profissões, são músicos desde crianças e amantes do jazz e da música em geral. Não se trata propriamente de um clube com associados, mas de um conjunto de jazz, sem integrante fixos, com participação da amigos e convidados, para o tocar o swing manouche, inspirado na música de Django Reinhardt, mas aproveitando elementos do jazz tradicional, do country americano, do blues e da música brasileira. Gravaram os CDs "Jazz à la Django" e “Quinteto do Hot Club de Piracicaba”, ambos produzidos pela Traditional Jazz Band Empreendimentos Artisticos Ltda, sem fins lucrativos e com finalidade beneficente. O grupo tem realizado inúmeras apresentações em diversas casas noturnas e nas edições anteriores do FestivaL de Jazz Manouche de Piracicaba.

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