Zezinho (José do Patrocínio Oliveira)

Nascimento

11 de Fevereiro de 1904

Falecimento

22 de Dezembro de 1987

Naturalidade

Jundiaí (SP)

Consagrado como a voz do Zé Carioca, de Walt Disney, foi um dos grandes multiinstrumentistas do Brasil

Por Jorge Carvalho de Mello

Filho de José Sá de Oliveira e Adelaide Magalhães de Oliveira, foi batizado  como José do Patrocínio Oliveira. O nome escolhido fora homenagem ao importante abolicionista, morto no ano seguinte ao nascimento do multi-instrumentista brasileiro. O primeiro instrumento musical do garoto foi o violino, que aprendeu apenas para satisfazer o desejo dos pais. Gostava mesmo era das aulas de  cavaquinho e de violão (Gazeta de Noticias, 17/12/1935, página10).

Ainda muito cedo ingressou no quadro de funcionários do Instituto Butantã, em São Paulo. Esse primeiro emprego mereceu registro na coluna Crônica Social do jornal Correio Paulistano, edição de 11 de fevereiro de 1920: “Aniversários: O sr. José do Patrocínio Oliveira, auxiliar da biblioteca do Instituto Butantan”.(sic). Ele conseguiu compatibilizar a cada vez mais intensa carreira musical com as atribuições de funcionário do Instituto Butantã pelo menos  até 1939 – quando passou a morar nos Estados Unidos.

A primeira notícia sobre o garoto como músico foi publicada pelo Correio Paulistano, edição de 16/12/1926, página 14): “Paralelamente às apresentações nas revistas, Pixinguinha e Bonfiglio de Oliveira exibiam-se na Rádio Educadora Paulista, como em 16 de novembro de 1926, num programa em que também participaram o violonista Larosa Sobrinho, Cherubim Assumpção no violino e José do Patrocínio em solos de cavaquinho.”

Nessa época, as rádios paulistanas funcionavam como sociedades e eram mantidas graças às colaborações financeiras de sócios, de maneira amadorística. Ainda assim, as emissoras se esforçavam para atrair grandes atrações musicais, como aconteceu em 1926 quando os já consagrados Pixinguinha e Bonfiglio de Oliveira estavam em São Paulo, integrando o elenco de duas revistas produzidas no Rio de Janeiro: Tudo Negro e Na Penumbra.

As apresentações de Tudo Negro aconteceram em 3 e 7 de novembro, respectivamente no Teatro Mafalda e no Cassino Antártica. Na Penumbra  estreou logo depois,  em 11 de novembro, no Teatro Santa Helena (Pixinguinha, Vida e Obra, página 110, Editora Lumiar, 1997).

Em 25 de dezembro de 1926 José do Patrocínio voltou a se apresentar na Rádio Educadora Paulista: executou solos de cavaquinho, com acompanhamento de violão a cargo de Masseran. (Correio Paulistano, 25/12/1926, página 12). Nessas primeiras aparições, é apresentado por seu nome próprio, e não por Zezinho, como se tornaria conhecido posteriormente.

A Exposição Anual da General Motors, realizada no Cine Odeon, que ficava na rua da Consolação, em São Paulo, no período de 18 de fevereiro a 4 de março, foi o maior acontecimento automobilístico e social de 1928 para os paulistanos. Entre os dois salões, onde eram expostas as novidades automobilísticas, apresentava-se uma orquestra típica, integrada por 50 músicos trajando roupas claras, com uma fita vermelha amarrada à cintura.

A orquestra era formada por naipes de violão, bandolim, cavaquinho e banjo, e tinha no repertório canções brasileiras, espanholas e portuguesas. A comissão organizadora, que já trazia a experiência de evento similar no ano anterior em Paris, confiou a seleção dos músicos e a direção musical a Américo Jacomino (também conhecido como Canhoto), considerado o mais importante músico paulistano dessa época (Correio Paulistano, 18/02/1928).

Mesmo com a saúde debilitada por problemas cardíacos – morreu de infarto alguns meses depois, aos 39 anos de idade -, Canhoto aceitou o convite. Com o prestígio que tinha, reuniu os melhores instrumentistas de cordas de São Paulo: Armandinho Neves, Carlinhos, José Sampaio e Zezinho, como agora José do Patrocínio Oliveira começava a ganhar fama. Nesse elenco estava um menino franzino, de 13 anos incompletos: Anibal Augusto Sardinha, que seria consagrado mais tarde como Garoto.

Muito embora tenha se apresentado em solos de cavaquinho no início da sua carreira artística, Zezinho dominava todos os instrumentos de cordas dedilhadas. Deste modo, formou, em novembro de 1928, um duo de banjo e piano com Gaó, cujo nome de batismo é Odmar Gurgel do Amaral (Correio Paulistano, Radiotelephonia -24/11/1928). Por se apresentar nos três anos seguintes quase exclusivamente tocando banjo, passou a ser conhecido como Zezinho do Banjo.

Entre 1929 e 1930, Zezinho participou de quase todas as gravações realizadas pela Columbia. Quase sempre em companhia de Gaó, Jonas Aragão e Petit (Hudson Gaia), Zezinho tocou na gravação dos artistas Alonsito, Luli Malaga, Jaime Redondo, Batista Junior, Eurístenes Pires, Januário de Oliveira, Humberto Marsicano, Jararaca, Stefana de Macedo, João Pernambuco, Lila Dias e Elsie Houston.

Parceria com João Pernambuco

Em setembro de 1929, Zezinho inicia parceria musical com João Pernambuco, participando como acompanhante de memoráveis gravações. Essa dupla começou a surgir no dia 30 daquele mês, quando acompanharam a cantora Stefana de Macedo em duas composições de João Pernambuco: a toada Vancê, em parceria com E. Tourinho e o coco pernambucano Tiá de Junqueira, ambas lançadas em dezembro de 1929 pelo disco nº 5.127 da Gravadora Columbia.

Zezinho e João Pernambuco também acompanharam Stefana de Macedo nas músicas Mãe Maria Camundá, batuque de Stefana, e Estrela D’Alva, toada de João Pernambuco. Essas gravações compõem o disco nº 5.157 da Columbia, lançado em fevereiro de 1930.

Em seguida, acompanharam Jararaca (José Luis Rodrigues Calazans) em dois discos, também pela Columbia: o de nº 5.121, gravado em dezembro de 1929, e lançado em março de 1930 com duas composições de Jararaca: o bate-pé Saco e Bisaco e a embolada Vamos Cortá Cana; e o disco nº 5. 172, gravado em 29 de janeiro de 1930 e lançado também em março de 1930, com duas composições de João Pernambuco: a toada Catirina e a embolada Meu Noivado.

Em 27 de janeiro de 1930, João Pernambuco grava o melhor da  obra violonística que criou, com Zezinho no acompanhamento musical, tocando violão. Foram cinco discos, com dez gravações memoráveis: o de nº 5.174, com o choro de Mico e a valsa Suspiro Apaixonado; o de nº 5.175 com o choro Magoado e a valsa Sonho de Magia; o de nº 5.176 com o fox-trot Rosa Carioca e o choro Reboliço; o de nº 5.177 com o jongo Interrogando e o choro Recordando; e, por fim, o de nº 5.178, com o tango estilo argentino Sentindo e o choro Dengoso.

Quando se ouve essas gravações, pode-se perceber com clareza os grandes recursos de acompanhamento que Zezinho possuía – o que lhe permitia fazer uma linha de baixo com muito bom gosto, como no choro Magoado e, principalmente, em Interrogando. É também notável a fluência de Zezinho na linguagem do choro.

1º lugar em Concurso

Considerado o mais importante evento do movimento artístico em São Paulo, ocorre em 1931 o Grande Concurso de Música Brasileira, promovido pelo jornal A Gazeta, com apoio da Rádio Educadora. Dividido em várias categorias de instrumentos musicais, além de canto, composição e declamação, os melhores artistas eram escolhidos pelo voto popular. E o público, ávido por participar de movimentos que prestigiavam os valores culturais e artísticos de São Paulo, vibrou intensamente com esse concurso (A Gazeta. Grande Concurso de Música Brasileira, 05/05/1931).

Na categoria banjo, Zezinho obteve o primeiro lugar, com 117.323 votos, contra os 67.851 obtidos por Luiz Bueno, que ficou em segundo lugar. Ainda nessa categoria, Garoto, então com 16 anos, obteve o sexto lugar, com 9.746 votos. Nesta época, Garoto tinha como ídolo Zezinho. Queria ser como ele e, se possível, tocar ainda mais que ele.

Nas outras categorias os primeiros lugares foram obtidos por Alberto Marino, violino: 196.687 votos; Cárdia, bandolim: 228.497 votos; Gaó,  piano: 92.837 votos; José Joaquim da Silva, saxofone: 189.373 votos; José Maria, bateria: 133.397 votos; Larosa Sobrinho. violão: 81.073 votos; Motta da Motta, cantor de música popular: 142.210 votos; Nabor Pires Camargo, clarinete: 184.901 votos; Pinheirinho, cavaquinho: 150.104 votos; Salvador Cortese, flauta: 183.143 votos.

O resultado expressivo obtido por Zezinho como primeiro colocado na categoria banjo foi mostra de popularidade e de reconhecimento por parte do público. Nessa época, suas atuações artísticas incluíam, além das inúmeras gravações, apresentações em teatros e em programas radiofônicos, nos quais conquistava popularidade cada vez maiores.

Pelas emissoras de rádios

Zezinho continuou atuando na Rádio Sociedade Educadora Paulista (PRA-6) até 1930, quando se  apresentou por inúmeras vezes tocando banjo, cavaquinho, ukelele e bandolim, tocando vários gêneros musicais, principalmente choros, valsas e fox-trot. Em algumas ocasiões apresentou composições de autoria dele, como os choros Macaco, Amei-te, Sete Cabeças, a valsa Relembrando o Passado e a música Miscelania (em solo de ukelele).

Ainda em 1930, em setembro, passa a integrar o Quarteto Columbia, formado por Gaó ao piano; Napoleão Tavares no piston; Jonas Aragão no saxofone, e ele, Zezinho, no banjo (Correio Paulistano,07/09/1930, página 14). Em seguida, integra a Jazz Band Columbia e a Orquestra Columbia, ambos sob a direção de Gaó. Estes grupos executavam um repertório bem eclético, incluindo valsas, choros, emboladas, sambas e fox-trot.

Em 1932, já atuando na Rádio Cruzeiro do Sul (PRB.6), Zezinho é aclamado ´O músico dos sete instrumentos´(Correio de São Paulo.24/10/1932. Radiotelefonia, página 3), e ganha um programa de quinze minutos, no qual terá de executar nada menos que sete instrumentos musicais, como violão, violão tenor, bandolim, cavaquinho, violino, banjo e ukelelê (instrumento de origem havaiana).

Nessa emissora, Zezinho tocou todos esses instrumentos em várias ocasiões. Ele se apresentou tocando violino nas músicas No Tempo em Que eu Amei, de sua autoria,  em 22/11/1932 e  Século XII, em 12/12/1932. Após breve passagem pela Rádio Record, retorna à Cruzeiro do Sul, onde passa a incorporar mais um instrumento à sua lista: a guitarra havaiana (Correio Paulistano. 01/08/1934, página 6).

O Diabólico

Em 1935 passa a atuar na Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. A Gazeta de Notícias (26/081935, página 10) chama Zezinho de ´O Diabólico´ e em artigo publicado em seguida menciona o êxito alcançado pelo Conjunto Havaiano dessa emissora carioca, integrado por Gastão Bueno Lobo, Nelson Alves, Henrique Brito e Zezinho.

Essa mesma matéria afirma que Zezinho, chegado havia pouco tempo de São Paulo, trazia na bagagem algumas composições próprias, como Um Passeio no Japão. A empatia com o público carioca não tarda a aparecer e, a exemplo do que ocorrera em São Paulo, conquista a admiração de todos com simpatia e talento.

O apelido ´O Diabólico´ é adotado por Cesar Ladeira, o principal apresentador da Rádio Mayrink Veiga, e ganha o apoio da Gazeta de Noticias (´O Diabólico´, página 10-04/10/1935): “Não podia ser mais feliz a adjetivação, pois ele faz o diabo com todos os instrumentos que toca, principalmente o violão, que é seu predileto”.

Zezinho continuou a se apresentar na Rádio Mayrink Veiga, como integrante da orquestra havaiana, da orquestra da emissora e do conjunto regional, além de aparecer como solista ao longo da programação. Em 11 de outubro, por exemplo, aparecem como atrações as artistas Amália Dias, Áurea Beatriz, Carmen Miranda, além de João Petra de Barros, Zezinho, Jack Fay, Moacyr Montenegro e as crônicas de Cesar Ladeira (A Noite,11/10/1935, página 3).

Por essa época atuou no Cassino da Urca, num espetáculo chamado Boate da África, no qual também atuavam o Bando da Lua, Slate Brothers, os cômicos do Paradise (de Nova York) e o sapateador negro Slim.

Em fevereiro de 1936, a revista Carioca promoveu o Coquetel das Estrelas, evento irradiado pelo Departamento Nacional de Propaganda, tendo como locutor Cesar Ladeira. A festa transcorreu ao som do piano de Nonô e dos conjuntos de Pixinguinha e de Zezinho, e do canto das estrelas como Alzirinha Camargo, Aracy de Almeida, Marilia Batista, Irmãs Pagãs, Linda Batista e Zezé Fonseca. (A Noite, primeira página - 14/02/1936).

Na Europa

Em 11 de abril de 1936, partiu o navio Cuyabá com destino à Europa. Entre os passageiros, integrando conjunto típico brasileiro com a missão de divulgar a música nacional em Portugal, França, Itália, Espanha, Bélgica e Alemanha, está Zezinho. O grupo viajou sob os auspícios do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural, por intermédio de Cesar Ladeira.

Liderado por Zezinho, o grupo era composto por Lauro Paiva (pianista), Laurindo Almeida (violonista), Benedito Augusto Lapa (baterista) e Oracy Camargo (saxofonista). Na última parada no Brasil, em 17 de abril, em Recife, o músico dos sete instrumentos concedeu longa entrevista ao Diário de Pernambuco (Vae a Europa o conjunto typico brasileiro(sic) 18/04/1936).

O jornal informa que o conjunto irá atuar na poderosa estação alemã D.J.A, cujas antenas são dirigidas para a América do Sul, onde transmitirão A Hora do Brasil em homenagem ao nosso país. Perguntado pelo repórter sobre o repertório que levavam para a Alemanha, Zezinho respondeu:“ Levaremos para lá música brasileira da melhor qualidade. Todas as novidades do Rio de Janeiro e ainda trechos do nosso folclore constituirão o repertório que será executado na emissora germânica pelo conjunto: marchas, sambas, choros, emboladas, etc, farão parte dos nossos programas”.

Durante três meses o conjunto passou por várias capitais europeias, onde realizaram inúmeras apresentações. Mas em Paris eles foram impedidos de desembarcar os instrumentos por questões burocráticas. Aproveitaram o tempo então para assistir a uma apresentação de Django Reinhart (violão) e Stephan Grappelli (violino), experiência que abriu novas perspectivas musicais para todos os integrantes do grupo brasileiro (Documentário Laurindo Almeida, Muito Prazer – direção de Leonardo Dourado, Telenews,1999).

Em junho de 1936 foi anunciada a volta da dupla Zezinho e Laurindo aos microfones da Radio Mayrink Veiga, a popular PRA-9 (Gazeta de Noticias - A dupla Zezinho e Laurindo - 20/06/1936, página 8). Mas deu tempo apenas de chegar, desfazer as malas, e embarcar novamente: contratados pela Rádio Belgrano, a dupla e mais as cantoras Carmen e Aurora Miranda, e os músicos Custódio Mesquita, Eugênio Martins, e Sutinho, seguiram para Buenos Aires, Argentina (Gazeta de Noticias - Embaixadores da nossa música - 14/07/1936, pagina 8). Em 8 de setembro embarcaram pelo navio Augustus de volta ao Brasil (Carioca - nº 06.05/09/1936).

Retorno ao Brasil 

No começo de novembro de 1936, o elenco da Rádio Mayrink Veiga sofreu grande mudança e novas atrações foram anunciadas (Gazeta de Noticias – A PRA-9 remodela completamente o seu “cast”- página 13, 25/10/1936). Entre as novidades, um programa com Zezinho apresentando o seu violão elétrico, “o primeiro e único aparelho nesse gênero existente no Brasil”.

Zezinho então se tornara um dos nomes mais importantes do elenco da Mayrink Veiga, com popularidade em alta. Por este motivo pareceu, no mínimo, estranha a sua ida para a Rádio Record em São Paulo.

Numa pequena matéria em que anuncia a contratação do violonista Antônio Rago pela Rádio Record, é dito que o músico de sete instrumentos integrará o regional da emissora, que é magistralmente dirigido por Armandinho (Armando Neves), em companhia de Zezinho do Banjo (Correio Paulistano - Novo violonista da Record - 06/02/1937, página 4).

O mesmo jornal, no mês de abril, reconhece que o apelido Zezinho do Banjo, como era conhecido no início de sua carreira, já não lhe cabia mais, visto que o seu instrumento predileto passara a ser o violão elétrico que trouxera da Alemanha. A proposta então seria passar a chamá-lo de Zezinho dos 14 instrumentos, numa alusão aos muitos, mais de sete, instrumentos musicais que dominava (Correio Paulistano - Zezinho dos 14 instrumentos -17/04/1937, página 4).

Mas Zezinho não fica muito tempo na Rádio Record. Em agosto de 1937,   reportagem sobre a inauguração da Rádio Tupi de São Paulo, com a direção artística do pianista Souza Lima, destaca o nome de Zezinho entre as novas e grandes atrações dessa emissora –  com a missão de ocupar os cargos de diretor do regional, da orquestra havaiana e do conjunto de ritmo (Carioca- nº 96-21/08/1937, página 43).

Seguem-se um breve retorno à Rádio Record, em junho de 1938 e uma breve volta à Mayrink Veiga – onde  integrou o regional da emissora e se apresentava sozinho ou com outros músicos, como numa de suas últimas aparições, onde formou um trio com Garoto e Laurindo Almeida (Gazeta de Noticias -19/04/1939, página15).

Rumo aos Estados Unidos

Dez dias depois a Orquestra de Romeu Silva parte, num voo da PanAmerican, para os Estados Unidos com o propósito de apresentar, no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York, a música brasileira para turistas de todas as partes do mundo. (Gazeta de Noticias-29/04/1939, pg 9).  Adivinhe que estava a bordo? O Zezinho - estava assim rompido para sempre o vínculo entre Zezinho e o Instituto Butantã. O que permitia a ele compatibilizar o vínculo naquele instituto com a movimentada carreira artística eram férias, licenças, folgas e 20 licenças sem vencimento.

No material de divulgação das apresentações da orquestra apareciam com destaque, além de Romeu Silva, o pianista Vadico, parceiro de Noel Rosa em muitos sambas de sucesso, o saxofonista e clarinetista Zacarias, o baterista Sute (João Batista das Chagas) e Zezinho. O dia 31 de outubro, na Feira Mundial realizada em Nova York, foi declarado como “Carmen Miranda´s Day”.

Sobre esse encontro, do qual Zezinho participou, Garoto assim se manifestou: “O Pavilhão Brasileiro em Nova York é um pouco do nosso país. Nele encontramos Romeu Silva com sua formidável orquestra, que prazer acharmo-nos entre patrícios”  (Cine-Radio-Jornal. Rio de Janeiro, 25/07/1940).

Com o Bando da Lua

Assim teve início a carreira internacional de Zezinho. Com o Bando da Lua, Zezinho sempre teve uma ligação muito forte, iniciada no final de 1938, quando, em excursão do grupo a São Paulo, um dos integrantes passou mal e foi substituído por Zezinho num programa na Rádio Record (Carioca,nº171, 29/01/1939, página 34).

Já nos Estados Unidos, quando Ivo Astolfi desligou-se do Bando da Lua, Zezinho assumiu o lugar dele enquanto Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) não chegava (Castro, Ruy-op.citt, pg 218). Em 30 de novembro de 1939 estavam de volta ao Brasil, pelo navio Uruguai, Romeu Silva e sua orquestra quase completa – dois desgarrados ficaram nos Estados Unidos: Vadico e Zezinho (Gazeta de Noticias -30/11/1939, pg 8).

O que o nosso Zezinho faz a seguir é descrito pela revista Carioca: “...Voltou no ano passado para atuar no Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York. Lá deixou desgarrado Zezinho - o homem dos sete instrumentos - que descobriu na Califórnia uma sambista brasileira, Dinorah Rego, e formou uma orquestra de samba com elemento cubanos, venezuelanos e porto-riquenhos que hoje tocam, como poucos, as músicas de Ary Barroso, Assis Valente, Dorival Caymmi e outros...”(sic) (Romeu Silva tocou na Casa Branca - nº 269  -30/11/1940, página 40).

Bing Crosby

Antes disso, logo ao decidir permanecer nos Estados Unidos, Zezinho foi professor de violão na Quinta Avenida, em Nova York, e se apresentou como violonista numa igreja metodista. Com sua orquestra de integrantes latino-americanos, se apresentou no Pavilhão Brasileiro da Feira de São Francisco, na Califórnia. Em seguida, fixou-se em Hollywood, onde atuou intensamente em programas radiofônicos, como acompanhante de artistas famosos. Inclusive de Bing Crosby, que lhe propôs que atuasse com exclusividade nos shows nas rádios e teatros, assim como nas gravações de seus discos (Carioca, nº294-24/05/1941, página 61).

Zezinho participou do filme Carnaval em Havana, com Carmem Miranda. No filme Road to Zanzibar, Zezinho é quem efetivamente toca o violão no lugar de Bob Hope, mas sem aparecer no filme e na ficha técnica.

Ruy Castro, no livro Carmen: uma biografia, conta que, entre a última semana de julho e a primeira de agosto de 1941, Aurora Miranda gravou três discos no estúdio da Decca, acompanhada pelo Bando da Lua e por Zezinho e Vadico.

Em 1942 acontece a principal guinada na vida de Zezinho. Dentro do programa da Política da Boa Vizinhança, instituído pelo governo americano para os países das Américas Central e do Sul, estava Walt Disney, encarregado de produzir filmes com temática latina. Segundo Ruy Castro, Disney e sua equipe ficaram de maio até agosto no Brasil estudando os costumes e a música brasileiros.

Zé Carioca  

A saga desta equipe na América do Sul está muito bem descrita no livro South of the Border with Disney, de J. B.Kaufman. Para representar o brasileiro típico, foi escolhido um papagaio batizado de Zé Carioca ou Joe Carioca, para os povos de língua inglesa. Alguns caricaturistas brasileiros colaboraram para dar forma ao papagaio malandro, boa praça, mas faltava um detalhe importante: quem falaria pelo papagaio, quem faria a voz do Zé Carioca?

O primeiro resultado dessa excursão foi o filme Alô Amigos (Saludos Amigos), no qual Aloysio de Oliveira trabalhava na produção. Ele cantou Aquarela do Brasil na abertura da parte brasileira do filme e também foi ele que resolveu a questão da voz do papagaio (Oliveira, Aloysio de- De Banda para a Lua - Record,1982):“Mandaram-me depois vários desenhos da figura do Zé Carioca para que eu aprovasse, e me encarregaram de escolher uma voz para o nosso papagaio. Sugeri, para interpretar o Zé Carioca, a voz de um paulista que já havia se incorporado ao trabalho com a Carmen, o José do Patrocínio Oliveira, o Zezinho, uma personalidade alegre que muito se identificou com o jeitão do papagaio”.

O interessante é que o próprio Zezinho dá outra versão sobre o ocorrido (Última Hora, São Paulo- 27/12/1954 -Zé Carioca inventou nos Estados Unidos a “Lata de Tomate”):“Em 1943 (N.A:a data não está correta) Walt Disney, depois de percorrer os países da América Latina à procura de tipos característicos para os seus fabulosos desenhos, “descobriu” o nosso papagaio. Mas...quem ia falar pelo papagaio? Me viram no estúdio falando desse jeito que eu falo (depressa, serelepe, gingante...contagiante como ele só) e me chamaram para um teste. Eu entrei e falei de ginga, falei bobagem à beça e eles gostaram. Ganhei 35 dólares por aquele teste”.

Filmes

Seja qual for a versão correta, o fato é que, a partir daquele momento, a vida de Zezinho tomou outro rumo: ele se tornou uma celebridade com o filme Saludos Amigos, lançado em 1942, e ficou ainda mais popular com outro filme de Disney, na mesma linha da Política da Boa Vizinhança: The Three Caballeros (Você foi à Bahia?), lançado em 1944 e tendo como destaque Aurora Miranda.

Nesse filme, além de emprestar a voz para o papagaio, Zezinho também aparece em cena. A partir de então os holofotes se voltaram para Zé (Joe) Carioca e Zezinho não precisava mais da música, dos seus solos vertiginosos em vários instrumentos ou de acompanhamentos primorosos para se tornar conhecido – ele já se transformara em celebridade.

Não ocorreu exatamente um declínio do Zezinho músico a partir do surgimento do Zé Carioca, mas sim uma mudança de foco. Ele continuou a se apresentar como músico em vários filmes, assim como uma espécie de coringa e depois como integrante mesmo do Bando da Lua, mas não precisava mais provar nada a ninguém.

Uma mudança pôs fim, ainda que temporariamente, ao Bando da Lua: no final de 1942, quando o próprio Aloysio de Oliveira se desligou do trabalho com Carmen Miranda e, consequentemente, do grupo. Seguiram com a Pequena Notável os músicos Zezinho, Nestor Amaral, Stenio, Affonso, Vadico e o trompetista Ivan Lopes, que formaram o conjunto Carioca Serenaders (enquanto Aloysio foi trabalhar com Disney).

De acordo com Ruy Castro, até  1946, Zezinho participou de quase todos filmes da Fox que tivessem alguma passagem musical tipo hispânica, latina ou exótica. Nos filmes de Carmen Miranda, inicialmente participou apenas da trilha sonora, e depois também em cena: a partir de Minha Secretária Brasileira, atuou nos sete filmes seguintes da Pequena Notável: Entre a Loura e a Morena (1943), Quatro Moças num Jeep (1943), Serenata Boêmia (1944), Alegria Rapazes (1944), Sonhos de Estrela (1945), Se Eu Fosse Feliz ( 1946) e Copacabana (1946)

Roosevelt

Zezinho passou grande susto por conta de um decreto assinado pelo presidente Roosevelt em 1942. Ele, na época com 39 anos de idade, foi intimado a comparecer numa junta militar, para fazer exames de saúde. Como Disney já concluíra o projeto para o novo filme, Você foi a Bahia?, no qual Zezinho teria destacada participação, e como as filmagens estavam para começar, ficou acertado com a junta militar que tão logo terminassem as filmagens, ele iria para a linha de combate.

Por sorte de Zezinho, poucas semanas depois, o presidente americano,  atendendo às ponderações dos chefes militares, expediu um decreto limitando a idade dos novos recrutas para 38 anos – escapou por pouco (A Noite - Carioca quase foi para o front!-17/01/1943).

Carioca Boys

Por volta de 1947, surge o conjunto Carioca Boys, formado por Zezinho (líder do grupo), Nestor Amaral, Russo do Pandeiro, Russinho e Laurindo Almeida. O grupo participou do filme A Caminho do Rio (Road to Rio), estrelado por Bing Crosby e Bob Hope, contando com a presença das Andrews Sisters.

O próximo filme de que participaram foi A Song is Born (A Canção Prometida ou A Canção que Nasce) em 1948, não mais como Carioca Boys, mas sim como The Samba Kings, praticamente mudando apenas o nome, pois os participantes eram os mesmos. Neste filme eles contracenaram com a fina flor do jazz norte-americano daquela época, como Benny Goodman, Tommy Dorsey, Louis Armstrong, Lionel Hampton, Charlie Barnett, Page Cavanaugh Trio e The Golden Gate Quartet (Carioca-O Pandeiro invade Hollywood!-nº 660, pg 36).

Após o final da Segunda Guerra Mundial, o interesse pelos filmes de Disney com a temática da Politica da Boa Vizinhança foi decrescendo cada vez mais. Zezinho, em função disso, tentou colocar o foco de sua atividade artística prioritariamente na música e, nesse sentido, a parceria com Nestor Amaral e Laurindo Almeida parecia indicar um caminho para que pudesse apresentar sua arte em alto nível, como o seu talento e técnica assim permitiam e, mais do que isso, exigiam.

Brazilian Trio

O trio formado por eles, Brazillian Trio, participou – no Music Lovers Club, um clube musical de Laguna Beach, na Califórnia – do evento A Concert in Latin Moods, do qual também participaram a flautista e compositora Elisabeth Waldo  e Lucien Movarack. O grupo de brasileiros apresentou Sonata Fantasia (Villa Lobos), Encantamento (Guarnieri) e Inquietação (atribuída a Ernesto Nazareth, embora não conste na lista de peças do pianista) (A Noite-Music Lovers Club - 06/11/1947, página 11), e participou da execução de uma fantasia sobre Casinha Pequenina, acompanhando Elisabeth Waldo.

Quando esse parecia ser um caminho certo para Zezinho se apresentar em alto nível, eis que Laurindo Almeida é convidado a integrar a prestigiosa Orquestra de Stan Kenton (A Cena Muda, 21/10/1947, página 29). Findo o trio, que infelizmente teve existência efêmera, Zezinho volta, por um breve tempo, ao conjunto de Russo do Pandeiro. O grupo, então integrado pelo próprio, mais Zezinho, Nestor Amaral, Paul Monte, Vern Walton e Joe Risso, apresentavam-se com sucesso em grandes cidades norte-americanas.

Em seguida Zezinho volta ao Bando da Lua, que então tem nova versão – além de Zé Carioca, os músicos Aloysio de Oliveira, Afonso, Vadico, o baterista mexicano Chico Guerrero e Gringo do Pandeiro, músico que trabalhara com o maestro Xavier Cugat.

Mais temporada com Carmen Miranda

O bando assim foi formado para acompanhar Carmen Miranda numa temporada de seis semanas no famoso Palladium, em Londres. Por se tratar da primeira vez que uma atração latina se exibia naquele teatro, o apresentador julgou apropriado explicar um pouco o estilo da cantora e da música. Nem precisava: o público estimado em 2500 pessoas aplaudiu a Pequena Notável e o Bando da Lua por cerca de vinte minutos.

Depois de partirem de Londres no dia 7 de junho de 1948, Zezinho decidiu ir para Portugal, onde se apresentou no Teatro Politeama por três  meses, e depois retornou aos Estados Unidos onde, juntamente com Vadico e o Gringo do Pandeiro, passou a se apresentar no nightclub Ruban.

No início de 1953, Zezinho se apresentava no Restaurante Marquis e integrava a orquestra de Desi Arnaz, que se apresentava na série de tevê I Love Lucy. Foi quando Aloysio de Oliveira o chamou para substituir Russinho em mais uma nova formação do Bando da Lua, para uma outra tournée com Carmen Miranda.

Em 20 de março desse ano embarcaram para Roma – a bordo Carmen Miranda e o Bando da Lua, agora formado por Aloysio de Oliveira, Zezinho, Lulu e Harry. Na Itália, além de Roma, se apresentaram em Nápoles, Messina, Bolonha, Verona, Veneza e Milão. Depois seguiram para a Suécia, onde se apresentaram em Estocolmo, Bruxelas, na Bélgica, Copenhague, na Dinamarca. Helsinque, na Finlândia, e, finalmente, Paris, por onde apenas passearam. Com a morte de Carmen Miranda, em 1955, Zezinho continuou se apresentando em restaurantes de Nova York, como o Marquis.

Já nos anos 1970, Zezinho se apresenta no La Renaissance, em duo com Lulu. Eles tinham um cartão de apresentação com os dizeres: Zé and Lulu-Continental Music, o que significa dizer que tocavam todo o tipo de música: tarantela, valsa, jazz e até mesmo música brasileira. Apresentavam-se também em festas particulares (Revista Manchete, 1977 - Zé Carioca, bem vivo está em São Paulo. Reportagem de Celso Arnaldo Araújo). Zezinho morreu no dia 22 de dezembro de 1987, em Pollock Pines, Califórnia.

 

Referências bibliográficas

Jorge Mello. Gente Humilde, Vida e Musica de Garoto, Editora Sesc SP, 2012.

Ruy Castro. Carmen, uma biografia. Companhia das Letras, 2005.

Documentário Laurindo Almeida, Muito Prazer – direção de Leonardo Dourado, Telenews,1999