Henrique-Pinto

Henrique Pinto

Nascimento

8 de Setembro de 1941

Falecimento

26 de Outubro de 2010

Naturalidade

São Paulo (SP)

Um dos mais importantes didatas do violão do século 20 em todo o mundo, Henrique Pinto formou várias gerações de violonistas

por GILSON ANTUNES

Falar sobre Henrique Pinto é falar sobre um dos mais importantes didatas do violão do século 20 em todo o mundo. Além de ter formado várias gerações de violonistas desde a década de 1960 – muitos dos quais foram vencedores dos principais concursos de violão da atualidade nas Américas e na Europa – foi importante como organizador de eventos violonísticos e concertista, mais notadamente como fundador e principal integrante do Violão Câmara Trio.

Seu interesse pelo violão começou aos oito anos de idade, no interior de São Paulo, quando assistiu a alguns violonistas tocando modas de viola na cidade de Rancharia. Seu primeiro professor foi o nordestino Manoel Pedrosa, passando em seguida a estudar com Sérgio Scarpiello no Conservatório Musical Villa-Lobos.

A primeira influência marcante foi Andrés Segovia, cujos discos ouvia com frequência na Casa Bevilacqua, no centro de São Paulo. Mas foi num recital do Duo Abreu, no Teatro Itália (no edifício de mesmo nome na região central da capital paulista), que Henrique afirmou ter ouvido os mais comoventes e marcantes acordes do violão em toda a sua vida, numa época em que o violão clássico brasileiro era divulgado principalmente por Turíbio Santos (especialmente no Rio de Janeiro), Barbosa Lima e Maria Lívia São Marcos e cuja influência da bossa nova ainda persistia, com grande número de pessoas estudando violão.

Bolsa de estudos

Logo, Henrique estudou com Manoel São Marcos e em seguida passou a ter aulas com o principal professor de violão da cidade, o uruguaio Isaías Sávio. Por um ano teve aulas também com Carlos Barbosa Lima, num curso de extensão aberto pela Comissão Estadual de Música. Em 1969, ganhou uma bolsa de estudos para participar de um dos principais pontos de peregrinação violonística em todo o mundo, o curso de Santiago de Compostela - fundado por Segovia - tendo aulas com José Tomás.

Ao voltar ao Brasil, participou do mais importante festival de violão da América Latina da época, o curso promovido pelo Seminário Palestrina, em Porto Alegre. Lá ele travou contato com o uruguaio Abel Carlevaro, que já havia desenvolvido sua escola violonística a partir de quatro cadernos de técnica. Henrique dirigiu-se então a Montevidéu, onde ficou hospedado na casa do violonista Eduardo Fernandes e estudou os quatro cadernos de técnica com Carlevaro, tendo três aulas semanais durante um mês. Nessa época estudou também matérias teóricas (harmonia, contraponto e análise musical) com Guido Santórsola e Mário Ficarelli.

Henrique Pinto já era então um dos poucos violonistas brasileiros a ter experiência com o que havia de mais moderno em termos de didática na Europa (com o curso da Espanha) e nas Américas (com as aulas com Abel Carlevaro), e logo passou a ser o mais requisitado professor de violão da capital paulista, conseguindo mais de 80 alunos. Além das aulas em si, Henrique dizia que algo importante referia-se ao estímulo de um trabalho pessoal com os alunos. Dessa maneira, começou a organizar eventos de violão, que não apenas influenciaram o moderno violão brasileiro, mas moldaram as características principais desse tipo de atividade no Brasil.

Agitador de eventos sobre violão

Após organizar pequenas apresentações e festivais em escolas e conservatórios de música – como o Brooklin Paulista – Henrique criou dois duradouros e tradicionais eventos de violão do Brasil, ainda hoje em atividade: o Seminário Souza Lima (atualmente Seminário Henrique Pinto) e o Concurso de Violão Souza Lima, ambos patrocinados pelo conservatório de mesmo nome na região central de São Paulo. Além destes, organizou várias séries anuais de apresentações no Museu de Arte de São Paulo (MASP), onde dava especial importância aos jovens violonistas de todo o Brasil, especialmente aos seus alunos.

Sua carreira de concertista foi marcada especialmente como camerista. Fez duos com o violonista Nelson Cruz, com os cantores Eládio Perez Gonzales, Anna Maria Kieffer, Aura Mendonça e Ilka Machado, com o violinista Moacyr del Picchia e, especialmente, com o flautista Jean Noel Saghaard, numa época em que ambos eram professores do Conservatório Musical Brooklin Paulista, na zona sul da capital paulista. Com Saghaard, Henrique realizou um importante recital no Hall da Prefeitura de São Paulo, ocasião em que o duo encomendou músicas para vários importantes compositores. Isso fez com que o repertório brasileiro original para flauta e violão tivesse um acréscimo considerável de obras de autores como Breno Blauth, Sérgio Vasconcellos Corrêa, Willy Corrêa de Oliveira e Souza Lima. Henrique também participou de duos de flauta e violão com outros grandes músicos como João Dias Carrasqueira e Antonio Carrasqueira, além de um importante duo de violoncelo e violão, chamado Violoncellando, com Gretchen Muller.

Violão Câmara Trio

Mas foi com o Violão Câmara Trio que seu nome ficou marcado como concertista. Esse trio de violões foi formado em 1986, com Henrique Pinto sempre tocando a parte do terceiro violão e dois de seus alunos tocando as outras partes.  Isso demonstrou a grande generosidade de Henrique como divulgador de seus alunos, muitos dos quais tiveram a primeira oportunidade profissional tocando nesse trio. A primeira formação teve Paulo de Tarso Salles e Giácomo Bartoloni. Em seguida, Ângela Muner (ex-esposa de Henrique, que já havia gravado em 1984 um importante disco com repertório espanhol) assumiu a parte de Paulo de Tarso, fazendo assim a formação clássica do trio. Com essa formação, gravaram em 1989 seu primeiro registro fonográfico, com obras de Piazzolla, Bartoloni e outros. O disco foi considerado, pelo maestro Júlio Medaglia, o melhor lançamento erudito daquele ano.

Após a saída de Bartoloni, ainda em 1989, Jardel Costa Filho assumiu sua parte no trio. O segundo registro fonográfico, Concerto a Tre, saiu em 2002, tendo em sua formação, além de Henrique, Ivan Claus e João Luiz (atualmente integrante do Brasil Guitar Duo). No repertório do CD constam obras de Debussy, Albinoni, Laurindo de Almeida, Soler, Bellinati, Hermeto Paschoal e Gnattali. A última formação do Violão Câmara Trio teve em seu núcleo o Brasil Guitar Duo (João Luiz e Douglas Lora).

Legado de professor e livros

Como didata, a importância de Henrique Pinto é única dentro da história do violão no Brasil. É praticamente impossível citar todos os grandes violonistas que foram seus alunos desde a década de 1960, pois a quantidade é imensa, desde Edelton Gloeden (professor da USP) até o Brazil Guitar Duo, passando por Fernando Lima, Fábio Zanon, Giácomo Bartoloni, Clemer Andreotti, Paulo Martelli e inúmeros outros. Seus livros foram editados pela Ricordi Brasileira assim que seu antigo professor, Isaías Sávio, faleceu no final da década de 1970, e continuam a ser adotados por escolas e conservatórios de todo o Brasil. Entre os principais estão os dois cadernos de Iniciação Violonística, o Ciranda das Seis Cordas (para iniciação infantil ao violão, que chegou a ser adotado na Itália e outros países europeus), o Técnica da Mão Direita (com forte influência Carlevariana) e o Curso Progressivo de Violão, além de várias transcrições e arranjos de compositores que vão desde John Dowland até João Pernambuco. Seu último lançamento foi em 2006, Violão, Um Olhar Pedagógico, que é o resumo de sua estética violonística. Este trabalho tem desde informações sobre técnica e interpretação até história do violão.

Entre os principais locais onde Henrique Pinto lecionou estão a Faculdade Paulista de Música, Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM), Universidade São Judas Tadeu, Mozarteum, Faculdade de Santos, Faculdade Cantareira e Escola Municipal de Música, entre várias outras.

Pela importância no meio acadêmico, recebeu do Ministério da Educação e Cultura o título de Notório Saber. O nome de Henrique era presença constante em praticamente todos os festivais de violão do Brasil, além de outros países da América do Sul, América do Norte e Europa. O legado do mestre continua nos eventos que organizou – e que atualmente são organizados por ex-alunos –, nos discos do Violão Câmara Trio, nos vários livros que editou pela Ricordi Brasileira e, principalmente, nos violonistas que ajudou a formar e que estão entre os maiores da atualidade em todo o mundo.

Discografia

Violão Câmara Trio (produção independente, 1989)

10 Anos de Violão Intercâmbio, com o Tema com Variações de J.P. Rameau (GTR, 2004)

Concerto a Tre (produção independente, 2002)

 

Livros publicados

Iniciação ao Violão (Princípios Básicos e Elementares)

Iniciação ao Violao IICiranda das 6 Cordas (Iniciação Infantil ao Violão)

Curso Progressivo de Violão (Nível Médio) para 2o., 3o. e 4o.Ano

Técnica da Mão Direita - Arpejos

Giuliani - Le Papillon Op. 50 - 32 Peças Fáceis para Violão

Violão: um Olhar Pedagógico

Trocar a clave de fá pelas colcheias