Americo-Jacomino-Canhoto

Américo Jacomino (Canhoto)

Nascimento

12 de Fevereiro de 1889

Falecimento

7 de Setembro de 1928

Naturalidade

São Paulo, São Paulo

O iniciador definitivo da profissão de concertista no país, ao tocar, portar-se e apresentar-se como violonista profissional

por GILSON ANTUNES

Américo Jacomino, o Canhoto, é uma lenda do violão brasileiro. Foi o iniciador definitivo da profissão de concertista no país, ao tocar, portar-se e apresentar-se como violonista profissional em várias localidades brasileiras. Gravou – solo, com seu grupo ou acompanhando cantores – mais discos do que todos os outros violonistas seus contemporâneos, até a data de sua morte. Inspirou diversos violonistas-compositores, desde Mozart Bicalho, Dilermando Reis e Garoto até Baden Powell, Geraldo Ribeiro e Vitor Garbelotto.

Se a história do violão instrumental no Brasil possui pelo menos duas vertentes bem definidas (a do violonista-compositor voltado à música popular e a do violonista com formação e repertório clássico), Canhoto pode ser considerado um dos primeiros representantes da primeira vertente, que teria seu auge em Baden Powell (com seu trabalho de compositor, arranjador e intérprete, basicamente o mesmo que Canhoto havia feito algumas décadas antes) e continuação em Toquinho, Raphael Rabello e Alessandro Penezzi (que gravaram ou tocaram obras de Jacomino).

Ao mesmo tempo, é comum ouvir obras de Canhoto interpretadas por violonistas de formação clássica como Paulo Porto Alegre, Elodie Bouny, Edson Lopes e Flávio Apro. Violonistas amadores também sempre interpretaram músicas como Marcha dos Marinheiros e Arrependida, especialmente em cidades do interior do Brasil. Numa busca rápida no youtube e outros websites de vídeos musicais é possível encontrar inúmeros exemplos que vão desde profissionais até amadores tocando suas obras.

Canhoto é sem dúvida um dos responsáveis pela divulgação do violão, desde as camadas mais simples da população até as principais salas de concerto, e um dos que mais ajudaram no reconhecimento e valorização do violão no Brasil, tanto em termos de crítica quanto de público.

Família

Nascido em São Paulo em 1889, filho de imigrantes napolitanos, Américo Jacomino teve como pai Crescêncio Jacomino e como mãe Vicencia Carpello. Autodidata, aprendeu violão escondido do pai – que não queria que ele se dedicasse ao instrumento – vendo Ernesto, o irmão mais velho, tocar. Por aprender escondido e pelo fato de ser canhoto, teve que aprender de um modo inusitado: tocava violão de maneira canhota, mas sem inverter as cordas. Daí veio o apelido que o marcaria para sempre.

Seus primeiros empregos foram como pintor de painéis e como jornaleiro. Com o dinheiro, conseguiu comprar o primeiro violão. Em 1904, fez sua primeira apresentação e em seguida conheceu em uma seresta o cantor Roque Ricciardi, o Paraguaçu, que seria seu amigo e companheiro musical por toda a vida. Após a morte dos pais (1908 e 1913), teve que se sustentar exclusivamente por meio da música.

Em 1912 gravou seu primeiro disco, pela gravadora Odeon. A partir daí não deixaria mais de gravar e de se apresentar em público, recebendo fama e reconhecimento crescente de público e crítica.

Em 1916 apresentou-se no auditório sagrado da música clássica paulista, o Salão Nobre do Conservatório Dramático e Musical, no centro da capital. Com uma apresentação bem organizada, que teve abertura de outros músicos e palestra sobre a história do violão escrita por um jornalista e apresentada por um poeta, Canhoto ganharia definitivamente o reconhecimento da crítica musical paulistana, que era extremamente rígida em relação a recitais de violão até então. Isso lhe abriu as portas para várias outras apresentações em todo o Brasil.

Mesmo sendo o recital no mesmo dia da apresentação da dançaria Isadora Duncan no vizinho Teatro Municipal de São Paulo, o recital de Canhoto estava lotado. No ano seguinte tocariam em São Paulo e outras localidades brasileiras o paraguaio Agustin Barrios e a espanhola Josefina Robledo, fechando assim o tripé necessário para o desenvolvimento do violão instrumental em São Paulo, com ecos por todo o Brasil.

Principais músicas

Em 1917 compôs suas três principais músicas: a valsa Abismo de Rosas (chamada inicialmente Acordes do Violão), a Marcha Triunfal Brasileira (que provém de outra de suas composições, o dobrado Campos Salles) e a Marcha dos Marinheiros.

Em 1919 montou um dos primeiros conjuntos de música caipira, ao lado de um ator cômico que encarnava o personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, e de uma cantora mirim. O trio Viterbo-Abigail-Canhoto terminaria de maneira trágica em 1920 com o assassinato de Viterbo de Azevedo durante uma turnê do trio em Poços de Caldas (Minas Gerais).

Durante a década de 1920, Canhoto apresentou-se em vários recitais pelo interior de São Paulo e do Brasil, e numa dessa apresentações em Itapetininga conheceu sua futura esposa, Maria Vieira de Moraes, filha do chefe político da cidade. Após o casamento, o casal muda-se para a cidade de São Carlos, no interior paulista, onde Canhoto funda a Casa Carlos Gomes, que vendia instrumentos musicais, partituras e discos. A decisão de mudar-se para São Carlos foi estratégica, uma vez que a cidade ficava no meio do caminho para suas apresentações na capital e interior.

Em 1925, Jacomino volta a residir em São Paulo. Por essa época, torna-se um dos primeiros músicos a se apresentar na recém fundada Rádio Educadora Paulista (futura Rádio Gazeta) e faz algumas das primeiras gravações no sistema elétrico no Rio de Janeiro. Suas gravações dessa década são consideradas algumas das melhores da história do violão no Brasil, ouvidas e estudadas de forma detalhada por violonistas como Antônio Rago, Mozart Bicalho e Dilermando Reis.

Concurso O Que É Nosso

Em fevereiro de 1927 participa do primeiro certame de interpretação violonística que se tem notícia no Brasil, o concurso O Que é Nosso, promovido pelo jornal Correio da Manhã. Apenas três participantes comparecem: além de Canhoto, o violonista cego Manoel de Lima – mais conhecido como Manoelito, do conjunto Turunas da Mauricéia, que tinha como cantor Augusto Calheiros – e a menina Ivonne Rebello, de 10 anos. Canhoto recebe o troféu principal, Prêmio João Pernambuco, sendo os outros violonistas também premiados: Manoel de Lima recebe o Prêmio Levino Albano da Conceição e Ivonne Rebello recebe o Prêmio Quincas Laranjeiras.

Ao voltar a São Paulo, Canhoto organiza um espetáculo no Teatro Municipal com os Turunas Paulistas, formado por músicos como Armando Neves. O jovem Aníbal Augusto Sardinha, mais conhecido como Garoto do Banjo (e, posteriormente, apenas como Garoto), também participou de espetáculos, tendo estudado com Canhoto durante certo tempo (conforme informações de Ronoel Simões e do filho de Canhoto, Luis Américo Jacomino). Por essa época, segundo o jornal O Estado de São Paulo, Canhoto dava aulas para mais de 200 alunos.

Ainda em 1927 Américo Jacomino foi nomeado lançador de impostos pela prefeitura da capital paulista, mas mesmo assim continuava sua carreira como concertista e suas gravações.

Morte

Em 1928, no dia comemorativo da Independência do Brasil, 7 de setembro, Américo Jacomino faleceu em São Paulo, no Hospital Santa Catarina – na Avenida Paulista – sendo enterrado no Cemitério do Araçá. Ele tinha apenas 39 anos de idade

A influência de Américo Jacomino é imensurável. Em vida, foi considerado o maior violonista do país, tendo recebido no Rio de Janeiro o título de Rei do Violão Brasileiro. Seus discos eram aguardados com expectativa pelos violonistas; as partituras de suas músicas eram das mais vendidas; seus recitais estavam sempre lotados.

Foi amigo de Agustin Barrios, gravou com músicos do nível de Francisco Alves, formou conjuntos importantes de música instrumental brasileira, gravou discos pelos sistema elétrico e mecânico, compôs mais de 150 canções de praticamente todos os ritmos principais da época (do maxixe ao cateretê, passando pelo dobrado, valsa, choro e tango, entre vários outros) e se apresentou em todo o Brasil. Tudo isso vivendo menos de 40 anos e não tendo nenhum violonista como antecedente para se espelhar em São Paulo. Músicas como Abismo de Rosas e Marcha dos Marinheiros jamais deixaram de ser tocadas e gravadas por violonistas profissionais e amadores. Violonistas como Geraldo Ribeiro e Ronoel Simões, entre muitos outros, consideram e consideravam Américo Jacomino o maior violonista brasileiro de todos os tempos.

Seu nome hoje em dia homenageia ruas e praças de cidades por todo o Brasil, como a Praça Américo Jacomino, onde se localiza a Estação Vila Madalena, do metrô de São Paulo.

 

Bibliografia

-ANTUNES, Gilson. Américo Jacomino "CANHOTO" e o desenvolvimento da arte solística do violão em São Paulo. Dissertação de mestrado. USP, 2002.

-BARTOLONI, Giacomo. Violão: a imagem que fez escola. Tese de doutorado. UNESP. 2000, 310 pág.

-ESTEPHAN, Sérgio. A Obra Violonística de Américo Jacomino, o Canhoto (1889 – 1928), na cidade de São Paulo. Tese de Doutorado, PUC, 2007, 255 pág.

-_________________. O Violão Instrumental brasileiro: 1884-1924. Dissertação de mestrado em História. PUC-SP, 1999.

 

Discografia

Devido ao grande número de discos, tanto solo quanto em conjunto ou acompanhando cantores – além dos discos de outros autores que vêm gravando suas obras desde a década de 1910 ­– listamos aqui apenas algumas gravações-solo):

Pisando na Mala (Odeon, 1912-1913)

Campos Salles (Odeon, 1912-1913)

Belo Horizonte (Phoenix, 1913-1918)

Saudades da Minha Aurora (Phoenix, 1913-1918)

Acordes do Violão (Odeon, 1915-1921)

Madrugando (Odeon, 1915-1921)

Uma Noite em Copacabana (Odeon, 1921-1926)

Marcha dos Marinheiros (Odeon, 1926)

Rosas Desfolhadas (Odeon, 1927)

Tempo Antigo (Odeon, 1927)

Abismo de Rosas (Odeon, 1927)

Marcha Triunfal Brasileira (Odeon, 1927)

Amor de Argentina (Odeon, 1928)

Quando os Corações se Querem (Odeon, 1928)

 

Composições Originais

A Gente se Defende

Abismo de Rosas

Acordes do Coração

Acordes do Violão

Ai Barbina

Ai Margarida Ai Margarida

Ai Momo

Alucinação

Alucinação de um Sonho

Alvorada de Estrelas

Amor de Argentina

Amor Sertanejo

Amores na Praia

Amorosa

Araci

Argentina

Argonautas

Arrependida

Bebê

Beijinho que te Dei

Beijos e Lágrimas

Belo Horizonte

Berço de Lágrimas

Berço e Túmulo

Brasileiro

Brasilerita

Burgueta

Campos Salles

Caprichoso

Carnaval a Noite

Casa Brancato

Cateretê Paulista

Cigarra na Ponta

Chuva de Pérolas

Clube do Jaboticabal

Côco de Iaiá

Da Bahia eu quero Côco

De quem são os teus Olhos

Deixe me Bem de Tolice

Delírios

Dengoso

Depois do Beijo

Devaneio

Dia de Folia

Em Pleno Mar

Entre Duas Almas

Escuta Minh´Alma

Esmeralda

Esse Cachorro Só Falta Falar

Falena

Fatalidade de um Beijo

Feche a Porta e Leve a Chave

Feiticeiro

Favorita

Flor Paulista

Fluminense

Foi-se Embora Maria

O Gato Comeu o Pato

Guitarra de mi Tierra

Hasta Luego

Invejoso

Já Se Acabô

Lábios Roxos

Lágrimas de Pérola

Lamentos

Lembranças de Lina

Longe de Quem Adoro

Luar de minha Terra

Luizinha

Luizita

Madrugando

Mamãe eu vou com Ele

Mamãe me Leve

Manhã Fatal

Manhãs de Sol

Manhoso

Marcha dos Marinheiros

Marcha Triunfal Brasileira

Medrosa

Melancolia

Menina do Sorriso Triste

Mentiroso

Mexicana

Não si Impressiona

Nas Asas de um Anjo

Nhá Maruca Foi S´imbora

Nhá Moça

Niterói

Noite na Roça

Olhar de Deusa

Olhos Feiticeiros

Olhos que Falam

Ondas Desertas

Pagando Dívidas

Paulista de Taubaté

Pensamento

Pisando na Mala

Ponta Grossa é Boa Terra

Porque Te Vuelves a Mi

Prelúdio em Mi Maior

Primeiras Rosas

Quando os Corações se Querem

Queixumes de Amor

Recordações de Cotinha

Recordações de Dalva

Reminiscências

Rolinha Voou

Rosas desfolhadas

Saci

Samaritana

Samba do Norte

Santa Terezinha

Saudades de Minha Aurora

Se o Telefone Falasse

Sempre Teu

Só na Bahia é que Tem

Solidão

Sombras do Passado

Sombras que Vivem

Sonhando

Sonhei, Sorri, Amei, Descri

Sonho de Amor

Sonho de Pierrô

Sonho de Primavera

Sortêro, Graças a Deus

Sudan

Suplicando Amor

Tempo Antigo

Tico-Tico Assanhado

Tico-tico no Farelo

Trepadeira

Triste Carnaval

Triste Pierrô

Tudo Mexe

Últimas Rosas

Última Noite em Copacabana

Última Noite em Ipanema

Última Noite na Roça

Última Noite no Sertão

Uiara

Viola Minha Viola